Nietzsche e a honestidade da canalha
Sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Nietzsche e a honestidade da canalha

Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil

 

 

Por Plínio Ubiratan Figueiredo Vieira

 

Nietzsche é um pensador controverso, cujos escritos metafóricos deixam até leitores eruditos confusos. Nietzsche tem trabalhos em crítica ética, da religião e da história. Este texto traz um pouco da crítica ética. Na obra “Assim falava Zaratustra” o bigodudo apresenta seu Zaratustra (não confundir com o profeta do Zoroastrismo), que é um viajante a refletir e propagar mensagens diversas. São mensagens temáticas, com diversos conceitos, preconceitos e desconceitos. No curso poético-filosófico, o autor se constrói e se desconstrói, em movimento. Devo dizer que é um texto longo e provavelmente cansativo. Por isso dividi em: “1”, um discurso sobre Nietzsche; “2”, exercícios práticos; e, “3”, síntese metafórica do que é a honestidade da canalha. O leitor que conhece o filósofo, ou o mais apressado, já pode partir para “2” e “3”.

 

  1. Alguns conceitos importantes são: (i) Super-homem – Zaratustra anunciava que deus estava morto e que deveria vir o super-homem. O homem é uma corda, um meio para o super-homem. E nesta corda, como a de trapezistas, passam homens, arriscando suas vidas para se superarem. O método para Nietzsche não estava no sobrenatural religioso ou em inspirações metafísicas, mas no próprio homem. O homem é o processo, a criar/inventar seu caminho arriscado de superação, ou encontrar a morte na queda do trapézio; (ii) Vontade – o anélito pode até não ser a melhor orientação ética, mas é o que lhe corresponde à honestidade, a mais humana o possível. O humano não deve ficar se censurando, viver com senso de pecado ou de passado com arrependimentos. Não deve seguir usando as virtudes como freios, mas como potência para a superação. Não deve ser falsamente gentil, mas desdenhar, zombar, quando for o caso. Deve ser franco com a inferioridade e a superioridade, porque a sociedade em Nietzsche é de um tipo espartano. É seletiva natural, competitiva – os nobres vivem e os fracos morrem. Mas, ao mesmo tempo, há uma virtude dadivosa. Os humanos fazem trocas entre si e são alegres com amigos e pares românticos de baile. Aí entra o papel do amor em Nietzsche. Disse Zaratustra ao louco que falava como ele, em “De passagem”: “Onde já se não pode amar, deve se… passar”; (iii) Niilismo – vem de “nada”. É usado para indicar indivíduos que por fora demonstram certos valores, mas não há nada senão vontade de poder quando “nus”. O que querem é ser notados e poder realizar as próprias vontades, muito humanas. Tudo é superfície e no fundo não há nada. Valores são apenas pisos para a vitória individual e basta mascará-los, imitar e mostrar/dizer o que se quer ver/ouvir. Qualquer princípio e qualquer processo é válido para a vitória. Nesse sentido, são criticados os “bons e justos”, por serem santarrões (moralistas hipócritas que julgam por leis que recairiam sobre eles mesmos), os cristãos, porque diz que, caídos os valores heterônomos (leis externas), o humano, que deveria ser autônomo (por conhecer bem sua vontade própria e o poder de realizá-la ou não) tem um nada por conteúdo próprio. Acabassem as regras externas (morte de deus, normas), o cristão e o “bom e justo” ficariam perdidos, confusos, sem nicho. Niilista é o humano que não suporta a si mesmo, não suporta a solidão, que é estar consigo. E que finge, para não estar só; (iv) (Grande) Meio-dia – seria o momento em que todas as sombras sumiriam, que tanto a clareza quanto a franqueza de vontades humanas prevaleceriam.

 

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Alguns preconceitos de Nietzsche mostram que, embora seja chamado de imoralista (porque faz apologia da vontade como guia da ação autônoma), é também moralista. Fala contra o consumo de álcool (cerveja), fala sobre a canalha (vilania que só procura poder e a tudo envenena por esse fim), sobre a aversão à vingança (justiça, que castiga vontades possivelmente similares às dos próprios homens que a gerem). Fala das “tarântulas”, que são filósofos e cientistas que tentam explicar tudo com suas “teias”. Fala dos “gatos monteses”, conservadores cujo pisar é tão cauteloso que não ressoa nem “com esporas”. Fala contra os anarquistas, chama-os de canalhas, e diz que pensam que os outros são também; contra as universidades alemãs, que estavam técnicas demais, não ensinando os jovens a pensar, mas a terem uma profissão mecanista; contra os socialistas, porque burlam a seletividade natural, com sua compaixão artificial; contra o Estado, uma instituição feita para o domínio, por/para quem tem sanha de domínio; contra a Igreja, fundada em história inventada e em ditos contrários ao que é humano – de impureza/imperfeição do corpo e pecaminosidade da vontade humana; fala sobre tratar mulheres no látego, e nisso falhou em ser visionário. Era crítico de praticamente tudo o que havia em seu tempo. Ansiava, com pressa, por um futuro.

 

Os desconceitos de Nietzsche são autocríticas que ele faz na viagem de Zaratustra. Zaratustra não procura prosélitos, mas os seguidores devem abandoná-lo e superá-lo. Devem ser autônomos e um caminho até um super-homem futuro. Fala de uma metáfora de Zaratustra como um “vento forte”, um tipo de crise, de grande acontecimento, mas o mostra como homem solitário, de subsolo. Muitas vezes triste, muito perdido, com frio. Ido ao inverno, longe das companhias que não aprova só para ter conforto. Recusa da complacência de estar com o obeso “deus do fogo”. Zaratustra é tão bom quanto é ímpio. Os animais de Nietzsche são a águia e a cobra associadas. Seu símbolo é um sol dourado do conhecimento envolvido por uma serpente. Enfim, Nietzsche não era lá ele mesmo flor que se cheirasse. Era ambíguo, uma mistura de sagacidade com malícia, saber franco das vontades e da existência humana real e inventada.

 

Decerto Nietzsche não é visto com bons olhos por muitos, porque a filosofia daquele bigode em forma de gente aplicada ao âmbito público é uma da diferença e de um ascetismo constante para a superação de si. O desdém aos baixos faz o papel filosófico do criticar/zombar, para que se superem ou que fiquem em seus lugares de servos. Também é associado, não sem controvérsias, ao nazismo (a corda da aventura seria o nazismo, o super-homem seria uma raça pura e predestinada e o desdém se voltaria aos judeus e aos fracos). Talvez se empolgasse com Hitler, como que por Napoleão, mas provavelmente fugiria ao saber das atrocidades vilãs. Porque pode-se dizer que é culpa de Nietzsche ter despejado momentos de ódio na escrita, mas essa leitura não é uma acabada. Não se vê em Nietzsche uma vontade filosófica que se ponha como boa ou má. Há vontades de poder e isto está além do bem e do mal. A verdade é subjetiva e humana. Se inventa, se processa, conforme vontades humanas. E o humano precisa ser também malicioso o suficiente para não ser prejudicado. Então não se espera/exige somente do outro que não o prejudique (porque em diversos momentos isto será contrário à vontade do outro), mas se tem malícia para não ser prejudicado. Essa competição de bem e mal, de versões, é que se constrói abaixo das vontades de poder e Zaratustra está “na montanha”. A leitura de Nietzsche sobre a realidade humana, apesar de incômoda, é acertada. Ela não é deontológica (dever ser, ideal), mas ontológica (ser, existente). Não se pode, no entanto, associar Nietzsche a uma honestidade da canalha. O alemão sabia que sua filosofia também seria usada por uma vilania e escreveu, em seu Zaratustra, dois capítulos importantes de rechaço: “A criança do espelho” e “Da canalha”. Que deixo para os(as) leitores(as), se tiverem vontade, investigarem.

 

  1. Depois deste longo introito já se tem o que é preciso para exercícios. Discurso sobre a honestidade da canalha – ser franco, habilidoso, mas trocar a nobreza final por ser vilão. Buscar sangue, não ter amor, não ter alegria, ser vingativo, inventar charlatanices irreais, incorpóreas, ter imposturas fantasmais para obter vantagens pessoais são indícios do que é repelido por Nietzsche. Assim, por exercício hipotético, uma personagem pode ser um nietzschiano de processo, mas não de fins. Sobre o processo: (i) seria uma corda, pois para alguns seria exemplo simbólico de super-homem; (ii) andaria por uma corda bamba, pois se aventuraria a não cumprir regras do próprio nicho; (iii) logo, seria autônomo, pois criaria o próprio jogo e as próprias regras dentro dele; (iv) teria poder para exercer/garantir suas vontades, por uma situação que lhe desse autoridade. Já sobre os fins dessa personagem, poderia se dizer que: (i) seu objeto seria a vingança, que não é um objeto nietzschiano; (ii) seu nicho seria o dos “santarrões” e dos “bons e dos justos”, dois nichos criticados com veemência pelo alemão (o humano que bravateia sobre o certo, o bom, provavelmente é um niilista. O que um humano desse tipo quer é atenção e… poder!); (iii) o objetivo da autonomia seria o domínio, vontade de poder criticada pelo filósofo; (iv) o poder autônomo tomaria quê de tipo sacerdotal, pastoral, para se universalizar e eternizar. De modo a persuadir que o poder não emana de si, mas de algum ambiente alhures, obscuramente muito maior em valor que o humano – vem de Cristo, de Deus, da justiça, da lei, do Estado etc. Exemplo: quando um presidente diz que um profissional não técnico foi predestinado a conduzir um ministério especializado. Então deus (o presidente) quis que o não especializado estivesse num lugar de especialidade. Uma transfiguração retórica fácil de se notar – a opinião própria é lançada como emanada de algo muito maior, mais valioso e poderoso. Com isso, alguém usurpa os poderes do símbolo, revestindo a própria linguagem e opinião como algo superior. Prove que Deus quis. Não é possível. E se o presidente quisesse que o não especializado saísse, alguma força mística o impediria? Certamente não. Enfim, Nietzsche se enfurecia com esse tipo de charlatanismo fantasmagórico.

 

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Por outro lado, um nietzschiano de processo e de fim é o personagem fictício Guido, de “A Vida é Bela”: anda por uma corda bamba, está sempre em movimento e se arriscando em aventuras excêntricas. Por exemplos: entra num colégio e se passa por ministro, só para ver a moça que gosta; furta chapéu e carro de conhecido para impressionar a moça; entra, a cavalo, numa festa para “arrebatar” a moça de seu par pedante. É autônomo, pois inventa suas próprias regras para consolidar seus anélitos. E seu fim é a vida e a alegria! A vida que se move por vontades maliciosas nas alturas, pois visa a conquistar a moça rica e a fazer a alegria do filho, inventando um jogo até quando num campo de concentração nazista. Não só isso, Guido cria, genialmente, uma realidade paralela, inventada, e aponta ao filho uma ou outra confirmação real do dito jogo, pondo-as fora de seu terrível contexto! Outros de tipo nietzschiano de meio e fim seriam João Grilo e Malasartes, malícias que enganam o diabo. Se é pouco a apresentação de pessoas fictícias, então, de forma real, poderia se dar como exemplo Oskar Schindler, que apesar de nazista, foi elusivo com o NSDAP e salvou judeus. Ivan Proença, militar que foi elusivo com os militares da ditadura, para não atacar alunos da Faculdade Nacional de Direito, da UFRJ. E também dos muitos gaiatos alegres e artistas poderiam se encaixar como figuras nietzschianas de meio e fim, tal como se apresentou Guido. Note-se a diferença: a malícia humana que tem por finalidade a vida, a alegria, a leveza. E não a morte, a tristeza, o pesadume. Imaginou-se na filosofia que da malícia poderia sair algo de bom? É para a sabedoria acerca desse tipo de ambiguidade que se mostra Nietzsche, além do bem e do mal.

 

Outro execício oportuno é falar sobre o niilismo, por exemplo, quanto aos valores cristãos. Que cristão seria um que xingasse não só em público, mas no trabalho? Que cristão seria um que falaria em metralhar? Resposta: valores cristãos (e também outros) são nada para essa personagem, seria um niilista. Nem valores militares teria. Apenas fingiria tais valores, para não ser solitário e para ter nichos de poder. E os que se unissem a tal personagem seriam famintos pelo poder, num tipo de velhacagem política.

 

Em suma, ou se é honesto e se é vil – nietzschiano de meio, mas não de fim; ou se é de falsos valores, para ser vil da mesma forma – niilista. De que adianta ser honesto, se é para ser vil?

 

  1. Para concluir com simplicidade sobre a honestidade da canalha, pergunto-me, usando agora uma linguagem hipotética bolsonarista. ‘Se eu chegasse para minha esposa e confessasse que matei o vizinho com um balaço, porque era comunista. E que um amigo ficou com as terras dele e mais um bosque, reserva do Estado. No bosque tinham uns aborígenes, uns bárbaros retrógrados, que foram expulsos a porradas e alguns acabaram mortos. E que lá nas terras me associei ao amigo, pondo crianças e gente pobre para trabalhar. E que os mais esfarrapados ganhavam uma medalhinha verde e amarela, por sua louvável cooperação. Daí, que os quilombolas eram pisados no pescoço e apanhavam quando pediam por uma vida melhor, porque tinham que saber seu lugar na sociedade. Qualquer um que quisesse condições melhores de trabalho, eram chamados de comunistas e tomavam logo 10 ou 30 tiros cada. Que era sempre bom matar um para dar o exemplo de tratamento e noção de postura social, sendo a “solução final” matar 30 mil. Em seguida, que uns gringos souberam das condições do ofício e da morte/expulsão dos indígenas, e que falaram para um jornal local. Mas que um amigo mandou um “mensageiro” para o jornal. Conseguinte que, ainda assim, a coisa chegara na justiça, mas que o líder de governo foi oferecer cargos a alguns políticos fisiologistas. Assim, depois de rápida votação, acabou-se a justiça do trabalho, dispensados ainda todos os servidores! E que um juiz do trabalho, do caso de meu amigo, veio a ser tornar ministro. Que a polícia identificou os jornalistas que soltaram a notícia e os prendeu! (Ah, se tivessem calado a boca…) Daí, que tudo estava indo a sucesso. Que no dia seguinte a moça, muito mais, e sempre, jovem e mui caseira, ganharia um cão, encontrado com coleira.’ Que honestidade mais canalha essa, não?

 

E o Direito com isso tudo? Deixei na honestidade as pistas para os juízos sobre a liberdade de expressão. Se a honestidade é da canalha, a liberdade de expressão é da… Assim teria falado Zaratustra…

 

 

Plínio Ubiratan Figueiredo Vieira é mestre em Filosofia, pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais – IFCS – UFRJ; graduado em Direito, pela Faculdade Nacional de Direito – UFRJ, título cum laude; graduado em Comunicação Social, jornalismo, pela UNESA – Niterói.


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