Sobre Carolina, ficções e fartura
Terça-feira, 11 de agosto de 2020

Sobre Carolina, ficções e fartura

BG: Fernando Frazão / Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Marco Aurélio da Conceição Correa

 

As crianças ricas brincam nos jardins com seus brinquedos prediletos.
E as crianças pobres acompanham as mães a pedirem esmolas pelas ruas. Que desigualdades trágicas e que brincadeira do destino.
(Carolina Maria de Jesus)

 

 

Instigado por um tweet do escritor Fabio Kabral me peguei com a cabeça matutando sobre a maneira que ‘consumimos conteúdos’ atualmente. Em seu comentário sintetizado em menos de 280 caracteres o autor aponta: as pessoas por não terem costume de ler ficções, se impressionam por qualquer porcaria, menos literatura. 

 

Não é preciso navegar por estatísticas e teorias sociais para conseguir compreender alguns dos motivos possíveis da falta de hábito de leitura dos brasileiros. A questão que me instiga ao ponto de escrever este texto não é essa propriamente, mas acho importante abrir um breve adendo provocativo no exercício de pensar nos perfis das pessoas que comandam a produção editorial brasileira, o público alvo deste mercado e a parcela demográfica que menos tem hábito de consumir literatura e conteúdos afins. Sabemos muito bem que os brasileiros são viciados em ficcionar a vida, talvez seja uma forma de escapar de uma realidade tão decepcionante, porém sabemos também que as pessoas consomem conteúdos de qualidade duvidosa e que persistem em narrativizar os mesmos estereótipos e caricaturas de sempre. Não há aliados quando o assunto são privilégios.

 

É claro que o simples fato de ter o hábito de leitura não traria mudanças significativas diretas para uma sociedade fundada e mantida nas desigualdades. Porém, acho que analisar as formas que consumimos ficções – ou quaisquer outros entretenimentos – é uma das formas de tentar compreender um pouco mais sobre nossa sociedade. 

 

Acredito que o mais importante para esse texto sejam as invenções cotidianas que os brasileiros – e acredito que grande parte do mundo – fazem para sanar essa vontade de ficcionar a vida, principalmente em tempos de hiperexposição nas redes sociais. Apesar de percebemos apenas recentemente que a internet e todas as tecnologias digitais fracassaram em libertar os seres humanos de seu próprio domínio, uma das grandes conquistas das tecnologias da informação foi evidenciar que a fofoca, a picuinha, a treta e várias outras formas de pelejas são de interesse de todas as pessoas, independente de classe, etnia, gênero, idade, sexualidade e qualquer outras condições. A internet democratizou o acesso a treta para todos os gostos, ou mal gostos, principalmente quando o assunto é tragédia, lamúria ou vingança. Sentimentos basais de nossa psiquê.

 

Para tentar evidenciar melhor meu ponto de vista, trago uma persona exemplar para esse argumento: Carolina Maria de Jesus. Muito se sabe sobre a trajetória sofrida da mineira radicada no Canindé paulista que viveu a vida a catar papéis até que foi descoberta pela mídia e se tornou uma bestseller traduzida para dezenas de línguas. Porém será que Carolina se limitava apenas a ser um exemplo de superação?

 

Carolina e seus filhos viveram à poucas vírgulas da política de morte do estado ao viver a fome. A necropolítica do Brasil república foi tão cruel quanto o cativeiro do pré abolição, a única diferença agora era que era preciso pagar com dinheiro as refeições diárias. A necropolítica é o ponto final da fome. Carolina escreveu:antigamente o que oprimia o homem era a palavra calvário; hoje é salário”. 

 

O psiquiatra Frantz Fanon em seus escritos apontou que talvez a maior violência que o colonialismo causou ao mundo não se deu na agressão física e visível aos corpos colonizados, mas sim na maneira como ele violentou e ainda violenta as nossas mentes. Apesar de Carolina ser a exceção que justifica a regra, há de se pensar quantas outras escritoras geniais foram ceifadas antes de poder pensar em escrever seus livros. O epistemicídio, morte do conjunto simbólico de povos não hegemônicos não se consolida apenas na morte, a precarização da vida – como na inanição da fome – impossibilita a existência de pessoas como Carolina, negras e pobres, de existir plenamente. “A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago”, dizia a poeta favelada.

 

A máquina do capital se mantém a moer mentes e corpos no necroliberalismo: a nefasta junção do capitalismo de terceira com as desigualdades racializadas. A atualização contemporânea desse sistema pilantra foi engambelar o cativeiro, o quarto de despejo, como liberdade disfarçada, na oportunidade de transitar pela casa grande, a sala de estar. Instaurando a escassez como possibilidade de exploração e de acumulo de privilégios. Como nossa poeta sagazmente pontua: “quem inventou a fome são os que comem”.

 

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Carolina conseguiu se emancipar apenas ao ser publicada, ao receber o seu título de escritora pela grande crítica capitalizada. Como se ao ser descoberta ela tivesse recebido vida por sua exposição, inventada pelo próprio sistema que a tornou invisível e a fez viver essa condição. 

 

Carolina viveu a mistura de sua trajetória de esperança e superação, acalanto para quem precisa de uma boa história de ninar e para aqueles que sonham um dia acordar também desse pesadelo. Não pretendo aqui menosprezar sua criatividade e sensibilidade como escritora que são inquestionáveis. A questão aqui é que quando Carolina deixou de ser a favelada que escrevia morando num barracão e passou a morar na casa de alvenaria seus escritos deixaram de ser interessantes. O sonho de Carolina era poder ser quem ela bem entendesse, proseando seu cotidiano, poetizando sua vida, cantando suas conquistas, mas como um brinquedo que perdeu o encantamento, a vida de Carolina deixou de ser tão interessante para a branquitude faminta por tragédias.

 

É aqui onde retorno para o ponto inicial do texto, a grande mídia capitalizada já entendeu há muito tempo – a partir de estudos de psicologia comportamental – que as tragédias são muito mais rentáveis. Principalmente quando os protagonistas destas são pessoas que, dentro da ótica das classes médias, vivem na margem entre o coitadismo e o ressentimento. Faz parte do necroliberalismo explorar os pontos mais vulneráveis daquelas pessoas que vivem à beira da morte. 

 

Ao viver em vida esse ostracismo, sua filha Vera Eunice muito comenta que um dos últimos pedidos da mãe antes de morrer era manter vivo a lembrança de seus escritos, além do quarto de despejo. O belo da trajetória de Carolina foi que ela entendia desde o princípio que não podia esperar muito da sociedade que vivia. Ela sabia muito bem o motivo dela estar relegada ao quarto de despejo. 

 

“A democracia está perdendo os seus adeptos. No nosso país tudo está enfraquecendo. O dinheiro é fraco. A democracia é fraca e os políticos fraquíssimos. E tudo que está fraco morre um dia. Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido”.

 

Mesma assim a escritora fazia questão diariamente de enfrentar a morte, que a visitava cotidianamente no roncar da fome de seus filhos. A morte é uma constante em sua obra, aparecendo tanto como um desfecho de sua vida de sofrimentos, representando o merecido descanso depois de tanto sofrer – “o negro só é livre quando morre” –, mas também como algo a ser ultrapassado, o que aconteceu pela sua sagacidade e por toda garra e gana. 

 

“Lá no interior eu era mais feliz, tinha paz mental. Gozava a vida e não tinha nenhuma enfermidade. E aqui em São Paulo, eu sou poetisa! […] Quando percebi que eu sou poetisa fiquei triste porque o excesso de imaginação era demasiado”.

 

Dando a vida em seus escritos Carolina escreviveu – como nos ensina Conceição Evaristo – para se manter viva. Presente já em seu diário víamos a sua criatividade, no ato de dar vida aos seus devaneios. Não era só de bravura que vivia Carolina, diversas metáforas com os céus, belos vestidos e a redenção. Carolina falava sobre seus desejos, sobre a prosperidade. O amarelo tão presente representando a fome também significa a bonança do ouro, da fertilidade, do amor. Carolina foi uma pioneira na ruptura com a estética da fome em busca de uma estética da fartura. “Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos”.

 

Carolina é um dos exemplos que trago para evidenciar meus argumentos, mas quantos outros escritores de origem como a dela são apagados? Enquanto não compreendermos que alimentar o ciclo vicioso da tragédia também pode nos tornar vítimas um dia, ainda viveremos o grande espetáculo da fome como a célebre poeta escreveu. Não que precisamos sempre viver às condolências, é preciso reagir, mas cirurgicamente, pois hoje em dia as reações são facilmente cooptadas por algoritmos capitalizados. Ficcionalizar a pluralidade é uma forma de afirmar a fartura da potência ao invés da escassez da tragédia. Precisamos ler Carolina Maria de Jesus além do quarto de despejo, precisamos ler ficções que evoquem prosperidade, ao invés de continuamente darmos ibope ao linchamento proporcionado pela branquitude. Precisamos partilhar essa abundancia de sentidos com nossa comunidade.

 

Quem não tem amigo,
mas tem um livro,
tem uma estrada.

 

 

Marco Aurélio da Conceição Correa é professor da Rede Municipal do Rio de Janeiro (SME-RJ), mestrando em Educação no Programa de Pós Graduação em Educação (PROPED-UERJ), pós-graduando em Ensino de História da África (PROPGPEC). Pedagogo, educador, escritor, pesquisa sobre as intercessões entre o cinema negro e o ensino das relações étnico-raciais. Publica textos em periódicos acadêmicos, revistas de comunicação e coletâneas literárias. É autor do livro “Cinemas afro-atlânticos: diásporas africanas e os cinemas negros nas tessituras em redes educativas”.


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