As estratégias seletivas por detrás de um match
Quarta-feira, 12 de agosto de 2020

As estratégias seletivas por detrás de um match

Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Ana Carolina Fernandes dos Santos

 

No que tange às novas dinâmicas comunicativas atravessadas pelo uso das tecnologias e mídias digitais, a efemeridade das relações e as novas formas de se relacionar parecem ponto central quando analisamos os efeitos da globalização sobre nossas vidas e relacionamentos. Haja vista que, hoje, nossos celulares e tablets, se tornaram potencialmente uma extensão de nossos corpos e subjetividades.

 

 

O uso potencializado dos aplicativos de relacionamento para os solteiros ou mesmo inseridos em sistemas de relacionamentos abertos como o poliamor, tem encontrado campo fértil para investimentos sejam eles sexuais ou não. O grande obstáculo dos encontros agora são os lockdowns e a própria quarentena que, para alguns é encarada como responsabilidade coletiva, individual e, até mesmo protetiva quando se reside com outras pessoas. Enquanto para outros é só uma excelente possibilidade de sentir a adrenalina que há em se colocar diante de comportamentos de risco, como é muito comum na fase da adolescência.

 

De fato, não são apenas os modos de se relacionar que tem passado por mudanças cada vez mais superficiais e instáveis, mas a qualidade dos vínculos, parece fadada ao fracasso. Enquanto deveríamos está reaprendendo a lidar com essas mudanças e avaliar possibilidades de manter tais relações mais saudáveis, estamos mais preocupados com a onda de desapego e casualidades em todos os quesitos que nos tornam humanos. Os debates ou diálogos já não se fazem relevantes em rodas de amigos ou em encontros a dois, a intensidade das entregas afetivas se tornaram “bregas” e sem valor, bem como expor alguém como seu companheiro (a) é um risco em potencial para o investimento de outras pessoas e suas outras possibilidades.

 

O Sociólogo polonês Zygmunt Bauman em sua obra sobre o Amor Líquido¹ traz como ponto central as relações modernas e a ambivalência constante das mesmas que, com toda flexibilidade e fragilidade que possuem, se expressam a partir da dúvida em ter uma espécie de amor romântico por toda vida ou mesmo pelo pavor de compartilhar algo com outra pessoa, mas ainda sim, sentir-se sozinho e sob a incógnita constante de se está perdendo algo quando “preso” a uma única pessoa. Bauman ainda traz em sua obra que, toda esta nova configuração humana em que se esvai ou mesmo se anula o sentir e o modo de se intensificar as relações, nada mais é que, um produto da modernidade e da globalização. Sendo assim, se a globalização e a modernidade estão diretamente atreladas ao consumo e a tudo que deve ser inovado ou criado, essencialmente, as novas relações são construídas diante de uma lógica de consumo e uso descartável, pois em outro local, em outra loja ou esquina, posso encontrar algo melhor e mais interessante.

 

Os aplicativos de relacionamentos ou talvez devessem ser chamados de aplicativos de encontros, tem sido um mecanismo altamente eficiente para as novas configurações e reajustes de relacionamento, em sua maioria casual e superficial, mas nada objetivos. Não é difícil compreendermos o esvaecer da consciência ou mesmo do sentimento de responsabilidade nestas relações que são construídas a partir de bases tecnológicas e, com características que em si já se fazem altamente irresponsáveis quando tratamos de sujeitos (as) que possuem identidades e subjetividades completamente distintas e, que mais do que qualquer definição simplória de individualidade se constroem também a partir de suas experiências relacionais, sejam elas afetivo-sexuais, de trabalho, familiares, religiosas e sociais.

 

Aplicativos como o Tinder, um dos mais utilizados no mundo, é apresentado como uma espécie de cardápio, no qual, a partir de algumas fotos e uma suposta definição de quem se é, de seus gostos, hobby ou mesmo do que se espera encontrar, tem sido uma ferramenta fácil, dinâmica e acessível para todos que tenham um aparelho android ou ios. Depois da primeira etapa de avaliação, vem a então decisão de descartar ou não o outro, com bases unicamente individuais e seletivas, que não perpassam apenas a simplória idéia de que seja alguém atraente ou não, visto que os padrões de beleza sempre interferiram demasiadamente para todos os tipos de seleções realizadas em quaisquer campos de atuação da nossa sociedade.

 

Em vista disso, as estratégias seletivas para um possível “match”, estão inundadas de preconceitos, sejam eles raciais, religiosos, de orientação sexual e classe, bem como de comportamentos pré-estabelecidos como morais e então filtrados por quem analisa o perfil em questão. E essas, sem dúvidas são denuncias altamente subjetivas e co-construídas desde nossos contatos mais primitivos com a família e sociedade, em que a partir de nossas interações e experiências, é possível não apenas aprender, mas apreender gostos, valores e preferências.

 

Algo notável nesse trânsito pelos aplicativos, sem dúvida é que esta seletividade invade muitas vezes, questões de cunho traumático e provedor de sofrimento psíquico para alguns. É certo que, o filtro anterior ao match não é suficiente, logo, a segunda etapa se caracteriza justamente por uma conversa prévia, como forma de checagem de informações e mais alguns anexos do que se “faz da vida”, com quem reside, se possuem filhos, uma “vida estabilizada” e o nível acadêmico marcam então, a escolha decisiva para o encontro.

 

Leia também:

Internet, Ódio e InfluencersInternet, Ódio e Influencers

O que não se percebe com facilidade é que, há teias interconectas entre os diversos estigmas associados a níveis de escolarização, raça, orientação sexual, classe social e que atravessam cruelmente essa escolha e também os próprios encontros. É notório que, essa seletividade individual e as estratégias construídas individualmente para se filtrar o que é mais satisfatório e atraente aos meus desejos e objetivos, sempre estarão atravessadas por estas marcações e, é nesse sentido que estes Apps ganharam tamanha força.

 

O “Match” então, nada mais é que, uma máscara que denota mistério e apetite, dos quais desembocam em grandes e profundas sensações, seja de orgasmos intelectuais, excitação, prazer, mas também de grandes indigestões emocionais, desprazer, cyberbullyng, violências e sofrimento. Afinal, toda essa seletividade pode ser fomentadora de novos estereótipos e, simultaneamente de novas práticas preconceituosas e descomedidas.

 

No movimento de busca por cada vez mais “combinações no Tinder”, como resultados dos “matchs” bem sucedidos, é possível observar padrões muito semelhantes no que refere as escolhas e, que se confluem com as regras de filtragem estabelecidas pelas pessoas em questão. Além disso, há quem se valha dessa seleção sejam para objetivos voltados a encontros casuais, relacionamentos abertos ou fechados, fantasias sexuais ou mesmo para propostas ligadas a parafilias.

 

O perigo se encontra nas repercussões desta seletividade e de seus impactos sobre a vida das pessoas. Onde se observa que, alguns corpos e identidades são valorados somente por constarem em um padrão previamente estabelecido e, por possuírem maior status de aceitabilidade e normatividade para determinados formatos de relacionamentos. E outros são mais apropriados para o uso casual, sigiloso, violento, restrito e destituído de afetividades.

 

Utilizados não apenas como realização de desejos e objetivos, mas instrumento de diversas violências, os Apps, ou melhor, as pessoas por detrás destes aplicativos, se valem de esforços significativos quando o objetivo é anular, diminuir ou mesmo escravizar emocionalmente o outro com base nos seus critérios individuais. Pessoas codependentes, por exemplo, dificilmente irão identificar com certa facilidade estes investimentos perversos que estão por detrás de um match e, cujo foco é apenas envolver o outro para satisfazer seus desejos e depois descartá-lo ou torná-lo um joguete de seus jogos cruéis e velados. 

 

Este não é apenas um jogo perverso de controle e manipulação dos corpos, mas uma expressão altamente tecnológica e inovadora de criar novos mecanismos e estratégias seletivas de descarte, estigma e uso inapropriado das pessoas, suas identidades, corpos e subjetividades. Não se pode negar que há interesses em comum que promovem a casualidade “desejada” e também recíproca. O que se há de pensar é o porquê dessas escolhas, se as mesmas produzem sensações agradáveis e saudáveis e/ou porque deste sujeito (a) acreditar que merece a superficialidade dos contatos e dos toques afetivos que o outro pode proporcionar. 

 

Notoriamente, essa afetação nas novas relações e não-observância dos impactos e, possíveis repercussões de práticas que tem se mostrado inconseqüentes ou mesmo superficiais e casuais, podem sucumbir com facilidade na transitoriedade da vida individual, mas se tornarem potenciais instrumentos de sofrimento psíquico e isolamento social.

 

 

Ana Carolina Fernandes dos Santos é Psicóloga (CRP 03/21102). Aluna Especial de Pós-Graduação em Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA). Ativista da Anistia Internacional- Salvador. Membro do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Culturas, Gêneros e Sexualidades do NUCUS/UFBA/CNPq)


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1] BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zorge Zahar Editor, 2004.

Quarta-feira, 12 de agosto de 2020
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend