Que partida o Rio Branco FC quer jogar com essa contratação?
Quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Que partida o Rio Branco FC quer jogar com essa contratação?

BG: Antônio Cruz / Agência Brasil – Imagem: Renata Caldeira / TJMG – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por IMA – Instituto Mulheres da Amazônia

 

A contratação do goleiro Bruno em uma posição de destaque social sem nenhum tipo de compromisso, reflexão e responsabilização por parte do clube Rio Branco e do Bruno é naturalização das violências contra as mulheres? 

 

 

Num país (Brasil) e num Estado (Acre) nos quais a violência contra as mulheres (com destaque para o feminicídio) possui índices altíssimos (os maiores do mundo e do país), deixar que o goleiro ocupe um posto de evidência sem qualquer compromisso por ele e pelo clube em relação ao enfrentamento a essa violência é problemático sim! 

 

Quando falamos em naturalização da violência, falamos em representações que legitimam de alguma forma essa violência. Fatos, comportamentos, manifestações e modos de lidar que fazem parecer que essa violência é de menor importância, banal, comum, como se fosse natural, como se fosse “autorizada”. 

 

Algumas situações nos mostram que Bruno não se responsabiliza pelo fato no qual se envolveu (feminicídio), não se responsabiliza pelos danos causados aos familiares da vítima e ao seu filho, bem como nos mostra também que os homens, além de não se movimentarem para superarmos os índices alarmantes dessas violências (praticadas por eles), fazem apologia e chacota a esses crimes. 

 

A resposta que os homens tem dado a esta questão tem sido assustadoras, a exemplo daquele que apareceu no fórum de Belo Horizonte usando uma máscara de cachorro como forma de auto-apresentação: “Vim para parabenizar o Bruno”! 

 

Vale destacar também a manifestação de um sujeito em vídeo culpabilizando as mulheres pelo fato dos seus companheiros contraírem e transmitirem doenças venéreas (IST), por eles fazerem uso abusivo de drogas e por cometerem violência doméstica. Ele usa expressões gordofóbicas, misóginas, sexistas como “bunda gorda”, “abre as pernas” e diz: “vocês provocam a reação violenta dos homens”. Culpa as mulheres pelas violências que elas mesmas sofrem e associa o movimento feminista a movimento partidário. Vergonhoso um país no qual, em 2020, ainda há homens que não sabem o que é e qual é a origem do movimento feminista. Isto nos mostra que ainda temos uma longa caminhada em nosso avanço no processo civilizatório.

 

É preciso ensinar o que é machismo e masculinidade tóxica para enfrentar a violência domésticaÉ preciso ensinar o que é machismo e masculinidade tóxica para enfrentar a violência doméstica

Quanto ao goleiro Bruno, este teve o comportamento, no mínimo, desrespeitoso e violador à memória de Eliza, à família dela e ao seu filho Bruno quando fez uma propaganda de canil. Será mesmo que ele refletiu o suficiente sobre seus atos para ocupar um lugar de destaque no futebol brasileiro? Se não refletiu, será que está disposto a refletir? Bem, quem precisa nos dar a resposta sobre isso é ele mesmo. Esta resposta precisa ser cobrada! Até que ponto ele está disposto a mostrar para crianças e torcedores que a violência contra a mulher não é banal, não é comum? Até que ponto ele está disposto a mobilizar os homens a não cometerem feminicídios e outras violências contra as mulheres?

 

Em virtude de sua profissão estar em um campo da “idolatria” no país, os critérios para avaliar a viabilidade de sua contratação deveriam começar por esse ponto, pelo seu compromisso em mobilizar outros homens contra o feminicídio. A idolatria por si só já é problemática por alimentar uma sociedade de consumo, somada a um feminicídio esta situação toma proporções ainda piores, catastróficas. Bruno precisa nos dizer o que faria de sua posição de destaque, que exemplo pretende ser para meninos e homens.

 

Em relação ao Clube Rio Branco e a seus torcedores, anunciar a contratação do goleiro sem nenhum tipo de reflexão sobre o cenário de feminicídios no Acre e sem nenhum tipo de compromisso para enfrentar esse cenário do Estado é banalizar essa violência, é uma afronta a todas as mulheres acreanas!

 

Especialistas questionam a atenção dada à contratação do atleta enquanto uma pessoa egressa do sistema prisional ao mesmo tempo em que viram as costas para outros ex-detentos. Se nossos clubes tivessem um envolvimento mínimo com a situação das pessoas egressas no país, teríamos um potencial enorme de inclusão social num lugar que se nomeia como país do futebol. Mas quantas vezes as equipes se preocuparam em empregar alguém que já passou pelo sistema prisional? Por que só a inclusão social de Bruno é evidenciada como importante? Não sejamos hipócritas! 

 

Com a contratação de Bruno, o Clube Rio Branco se disporia a mobilizar homens e torcedores contra o feminicídio no Estado? Com a contratação de Bruno, o Clube Rio Branco se disporia a realizar projetos de inclusão social e inclusão produtiva de pessoas egressas do sistema prisional? Uma resposta do clube precisa ser cobrada!

 

Se não houver envolvimento efetivo e responsabilidade do Clube Rio Branco nesses sentidos, a contratação de Bruno é banalização das violências contra as mulheres sim e o discurso de “ressocialização” é mera hipocrisia para justificar essa banalização!

 


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