A Construção da mulher na mídia
Segunda-feira, 24 de agosto de 2020

A Construção da mulher na mídia

Imagem: Cartaz do filme “Miss Representation” 

 

Por Isabele da Costa Lourenço

 

O presente artigo tem como inspiração o documentário “Miss Representation”, dirigido por Jennifer Siebel Newsom e estrelado em 20 de janeiro de 2011.

 

 

Dizem que somos o que comemos, ouso em acrescentar que somos mais que isso, somos também o que ouvimos, vemos e lemos. O ser humano sempre necessitou representar a realidade em que vive e recorre às histórias e imagens para difundir pensamentos e conhecimento. As pinturas rupestres relatavam o cotidiano; as tragédias gregas mantinham controle social, as comédias criticavam os nobres; o cinema foi extremamente importante nos anos de guerra; o American Way of Life foi difundido por meio das propagandas; princesa Isabel tornou-se salvadora dos negros através da linguagem empregada nos livros didáticos; Fernando Collor venceu as eleições por meio da apelação visual que criou diante das câmeras. À vista disso, é notório que a função dos meios de comunicação vão além do entretenimento, é por meio deles que se torna viável a disseminação de valores e padrões de comportamento sociais e para isso utilizam artefatos que atuam no inconsciente dos consumidores. Em razão disso, faz-se imperativo refletir sobre como esses meios estão cooperando para a permanência e manutenção da cultura machista e para a inibição do desenvolvimento feminino.

 

Estudiosos afirmam que o ato de contar histórias e ouvi-las contribui significativamente para o processo de compreensão do mundo, a criação da identificação e dos sonhos das crianças[1]. No entanto, a percepção que reverbera nos contos infantis é de que a mulher depende de um homem para sua sobrevivência e para a autorrealização, repercutindo no subconsciente, valores que limitam o agir feminino desde seus primeiros anos de vida.

 

Assim como as crianças, os adolescentes também recorrem ao que ouvem, leem e vêm para interagir com a sociedade. Nessa fase a beleza ganha destaque e passa a ser requerida como prioridade pelas jovens dessa faixa etária. Filmes, livros, seriados e músicas padronizam, durante esse período, a maneira como essas se vestem e se comportam, a fim de agradar o sexo masculino.

 

É válido ressaltar que a imprensa não impõe apenas os comportamentos femininos, os meninos também sofrem influências. É na mocidade que os comportamentos machistas ganham espaço e naturalidade. Ao difundir nos meios midiáticos que homens têm autoridade sobre tudo que está a sua volta e incentivarmos a verem as mulheres como objetos, retiramos toda a humanidade dessas permitindo e banalizando toda violência contra elas. Além de permitir a opressão feminina, a coisificação agrava fatores psicológicos, sociais e profissionais das mulheres, uma vez que essa prática visa menosprezar continuamente suas capacidades e estrutura intelectual e corporal.

 

Leia também:

Lugar de mulher é onde ela quiser?Lugar de mulher é onde ela quiser?

Na fase adulta a mulher é ainda mais desvalorizada e as características naturais do gênero ganham conotações negativas, resultando na depreciação de sua autoestima e acentuação de suas inseguranças. De acordo com estudos mostrados no documentário “Miss Representation”, as mulheres americanas tendem a investir mais no físico do que em atividades intelectuais, fator que acarreta baixa evolução intelectual e profissional, tornando a independência e o empoderamento feminino uma utopia. 

 

O significado de empoderamento é constantemente distorcido pelas campanhas publicitárias. Mulheres consideradas empoderadas, segundo a mídia, são as que mostram o corpo e sempre acompanhadas de um título que ludibrie o público a pensar que aquilo é o equilíbrio perfeito. No entanto, está apenas reforçando a filosofia de que a essência da mulher está atrelada ao corpo e não a sua capacidade faculdades intelectuais.

 

A somar-se a isso, temos a pouca representatividade feminina em posições de liderança ou em cargos elevados ou científicos. Reformular essa estrutura é fundamental para inspirar novas gerações de mulheres e mostrar a elas que são capazes de conquistar qualquer posição que almejam, afinal como afirmou Marian Wright Edelman “Não podemos ser o que não podemos ver”.[2]

 

O fato é que crescemos em um mundo escrito por homens e para os homens.

 

Viver em um mundo em que os homens escrevem e comandam as produções artísticas, significa moldar e enxergar o mundo através do homem. Simone Beauvoir escreveu em seu livro “O Segundo Sexo”, “O homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele”[3], fato que torna-se nítido quando analisamos a composição das equipes midiáticas. De acordo com a matéria publicada no site G1, apenas 7% dos diretores dos principais filmes do ano de 2014 eram mulheres, sendo apenas 11% roteiristas dentre os filmes selecionados pela pesquisa[4]. Analogamente, o jornal “O Povo” divulgou, em 2017, uma reportagem – com base em uma pesquisa feita pela UNB – na qual afirma que mais de 70% das obras nacionais publicadas entre 1965 e 2014 são autoria masculina[5]. Por meio desses dados é possível compreender o porquê a mulher é sempre inferiorizada e ensinada a ser insegura consigo mesma, enquanto o homem é sempre colocado em um patamar prestigiado e de poder. 

 

Enquanto discutirmos as violências cotidianas resultantes do machismo estrutural sem refletir sobre os pilares que o sustentam, não haverá mudanças.  Não devemos ver esses meios apenas como um utensílio capitalista, mas também como ferramenta indispensável para a saúde social e para a mudança de pensamentos patriarcais.

 

Exigir uma indústria de entretenimento mais igualitária e democrática, ampliará as possibilidades de representar a realidade de maneira fidedigna e de enxergar a mulher com mais humanidade. Afinal, a cultura que estamos repercutindo não apoia o crescimento psicológico, social e intelectual da mulher, consequentemente não auxilia na plena prosperidade social e política da humanidade. É imprescindível refletir o modo como descrevemos as mulheres e repensar se a maneira como estamos incentivando-as é a mais adequada ou apenas uma ilusão de prosperidade.

 

 

Isabele da Costa Lourenço é graduanda de Direito pela Universidade Estadual de Londrina.


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1] MOURA, S. M. et al. A literatura infantil na formação da identidade da criança. 2012. Artigo científico – Curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Londrina, Paraná, 2012. Disponível em:http://www.uel.br/revistas/prodocenciafope/pages/arquivos/SIMONE%20MOURA-FABIANA-EDWYLSON%20-%20pedagogia.pdf. Acesso em: 05/06/2020

[2] MISS Representation. Direção e produção: Jennifer Siebel Newsom. Intérpretes: Rachel Maddow; Jehmu Greene; Catherine Hardwicke e outros. Roteiro: Jennifer Siebel; Jessica Congdon; Claire Dietrich e Jenny Raskin. Roco Films. 2011. Disponível em: https://www.netflix.com/watch/70167128?trackId=13752289&tctx=0%2C0%2C7d7c6344-5f0b-4535-aaa5-6df70cba2706-23676556%2C1a99ac8a2ea89490b9bd66db8f5bdcb6382f0e0a%3A3839cfc8d978461ece2fab63b892f097c4001dc7%2C%2C. Acesso: 20/05/2020.

[3] Beauvoir, Simone. O Segundo Sexo. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

[4] G1. Mulheres são diretoras de apenas 7% dos principais filmes de Hollywood. Disponível em: http://g1.globo.com/pop-arte/cinema/noticia/2015/10/mulheres-sao-diretoras-de-apenas-7-dos-principais-filmes-de-hollywood.html. Acesso: 25/05/2020.

[5] COSTA, Isabel. Mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras brasileiras entre 1965 e 2014 foram escritos por homens. O Povo. Disponível em: https://blogs.opovo.com.br/leiturasdabel/2017/11/30/homens-e-brancos-tem-maior-fatia-no-mercado-editorial-desde-1965/. Acesso: 27/05/2020.

Segunda-feira, 24 de agosto de 2020
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]