Uma reflexão possível a partir da obra “Crer e Destruir”
Terça-feira, 25 de agosto de 2020

Uma reflexão possível a partir da obra “Crer e Destruir”

Imagem: Reprodução Internet

 

 

Por Zacarias Gama

 

Nestes tempos de bolsonarismo o livro de Christian Ingrao – Crer & Destruir, os intelectuais na máquina de guerra da SS nazista (Zahar, 2015), é assaz aterrorizante como expressou o Wall Street Journal. Ingrao é ligado ao Centro Nacional de Pesquisa Científica e foi diretor do Instituto de História do Tempo Presente (IHTP), ambas instituições são francesas. Sua pesquisa para obter o grau de Doutor na Fundação para a Promoção da Ciência e Cultura, em Hamburgo, é importante, original e relata como oitenta jovens inteligentes e cultos, formados pelas melhores universidades alemãs se deixaram cooptar pela ideologia nazista e pela ideia de extermínio em massa. Ele reconstrói os trajetos de economistas, advogados, filósofos, geógrafos, historiadores e linguistas que escolheram o lado do mal.  Seus objetivos: “compreender em que medida as molduras da experiência vivida foram capazes de modelar seu sistema de representações” e “analisar o nazismo como um sistema de crenças ‘desangustiante’, cuja coerência entre discursos e práticas fosse apontada pelas ferramentas de análises e se encarnasse em percursos e carreiras” (p.11). Ou, em outras palavras, “como esses homens fizeram para crer e para destruir”. O que une os sujeitos investigados é o fato de terem participado de campanhas de repressão no Leste Europeu, de matanças e do genocídio de judeus, eslavos, latinos, ciganos e homossexuais.

 

A relevância deste estudo para entendermos a ascensão do bolsonarismo e a sua chegada ao Palácio do Planalto é grande. À semelhança do que Ingrao investigou, aqui também entre nós, inúmeros jovens com carreiras promissoras em diversos campos do conhecimento humano e diplomas referenciados socialmente se tornaram os pilares de sustentação de um governo que a cada dia se mostra mais autoritário, antidemocrático, impopular, homofóbico, aporofóbico, machista e fundamentalista, e nada faz para conter o genocídio de jovens pretos e pobres. A pergunta que fez, também vale para nós: como promissores e bem formados jovens podem apoiar este governo e contribuir para destruir os avanços democráticos conquistados nos últimos anos, restringir direitos sociais e transferir recursos naturais e riquezas socialmente produzidas para as mãos de grandes exploradores internacionais? 

 

Ingrao faz as suas apostas nos sentimentos de angústia de muitos jovens alemães típicos do período entreguerras, que os levaram a determinados engajamentos políticos, a ver na formação elitista das SS os meios para se distanciarem das hordas ignaras e a entrar no jogo político-institucional, a partir do qual contribuiriam para justificar científica e ideologicamente as atrocidades do regime hitlerista. Angústia e representações das organizações paramilitares nazistas seriam os motivos maiores da adesão à construção do III Reich, aos quais eu ainda acrescentaria: ambição e busca de poder e prestígio social. 

 

O autor da obra enquanto se fixa em sentimentos de angústia e trajetórias não se pergunta, entretanto, quem eram estes jovens, quais as suas concepções de mundo antes da chegada ao poder do Partido Nacional Socialista, que capacidade tinham de realizar elaboradas mediações a partir da realidade concreta. Considera-os como jovens formados em níveis superiores nas melhores universidades e analisa os seus percursos e engajamentos. Seu ponto de partida é a sua surpresa ao constatar que economistas, advogados, filósofos, geógrafos, historiadores e linguistas contribuíram para “cientificizar” e justificar os horrores praticados pelas Waffen-SS. 

 

A participação e o engajamento de indivíduos com boa formação superior seja como apoiadores ou quadros, não é, todavia, uma exclusividade das SS ou do nazismo. A história nos fornece muitos outros exemplos ao longo de todo tempo da cristandade. Aqui entre nós poderíamos recorrer a diversos outros, a começar pelos intelectuais orgânicos das ditaduras de Vargas e Civil-militar de 1964-1985. Minha hipótese é que o comprometimento com regimes autoritários está diretamente ligado à construção de uma dada concepção de mundo. Vejamos. 

 

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O ser humano, diferente de outros seres que agem conforme as suas inscrições genéticas, é um ser aprendente a partir de seus primeiros momentos de vida e, como diz Lukács, as suas apreensões do mundo externo das objetividades se dá imediatamente e na imediaticidade insuprimível sob forma de coisa. Paulo Freire diria que neste estado os indivíduos têm uma consciência intransitiva mítica, mágica e ingênua. São limitados em suas capacidades de apreensão do real, utópicos, irracionais e fanáticos. A consciência deles é em si e por si, na mais pura formalidade. Eles vivem em um mundo de representações comuns, cujos fenômenos penetram em suas consciências e os fazem ver o mundo com movimentos próprios e naturais. Em tal mundo, subordinam-se a manipulações de outros.  São incapazes de indagar, descrever e, portanto, de captar a essência dos fenômenos. Paulo Freire se dispôs a ajudar o homem simples e analfabeto a superar a sua compreensão de mundo, a inércia, a passividade e a alienação. Seu objetivo era que desenvolvessem uma consciência crítica, isto é, um nível avançado de consciência que tudo submete à análise e crítica, porque, afinal, o que é verdadeiro hoje pode deixar de sê-lo amanhã.  Contudo, como afirmei em outra oportunidade (Gama, 2020), não se chega a este estado de modo abrupto, há que haver esforço, um processo de conscientização no qual vão se desenvolvendo os graus de tomada de consciência. É imperativo fazer mediações e mais mediações diante do real. 

 

Sem tal esforço, isto é, sem mediações complexas e cada vez mais abrangentes, os indivíduos, quando muito, tendem a atingir somente um estágio de consciência um pouco mais elevado no qual as respostas continuam contaminadas de teor mágico, porquanto se encontram distantes de apreenderam a essência dos fenômenos e as suas múltiplas determinações. Determinismo e fatalismo também permanecem presentes, daí que os fenômenos continuam sujeitos a leis naturais e às relações de causa e efeito; são poucas ou nenhuma as alternativas reais. Nada acontece fora de seu tempo, a vida de todas as coisas vivas ou inanimadas está subordinada à lógica criativa divina. 

 

O processo educacional escolarizado deveria ser importante para todos chegarem ao estado de desalienação, mas pela própria complexidade na qual de funda, é incapaz de garantir certificados a todos que participam dele. Já houve quem tenha afirmado que a mesma escola tradicional do alvorecer do século XX formou Einstein e Hitler. E o porquê disto se deve aos movimentos contraditórios que caracterizam os processos escolares; a dialeticidade reinante, como já sabemos, tanto permite a formação de indivíduos reprodutores do status quo quanto de outros que o negam e o revolucionam. De igual modo, uns tantos completam os seus tempos escolares sem atingir os elevados níveis de consciência crítica ou de desalienação; outros tantos, apesar de tudo, alcançam na mesma trajetória escolar a superação das determinações e fatalidades fenomênicas, tornam-se sujeitos de suas histórias e da história da humanidade.

 

Com essa compreensão, fica relativamente fácil entender o porquê de existir economistas, advogados, filósofos, geógrafos, historiadores e linguistas em estado de intransitividade ou transitividade crítica incompleta, na terminologia de Freire. O projeto Escola Sem Partido, felizmente vetado pelo Supremo Tribunal Federal, permitiria a existência exponencial de pessoas alienadas portadoras de diplomas de nível superior, bastando tão somente que as instituições de formação restringissem os conteúdos disciplinares a coisas em si, incapazes de serem compreendidos para além de si mesmos e, praticamente, sem relações com os demais componentes curriculares e com a realidade concreta. 

 

Conheço diversos indivíduos com diplomas de cursos superiores que sustentam o bolsonarismo, a despeito de sua elevada rejeição social. O que fizeram para crer e o que fazem para destruir é resultante da modelagem dos seus sistemas de representações em níveis de consciências mítica e transitiva. É sintomático que concebam o atual presidente da República como um mito, isto é, como um ser com forças da natureza e aspectos gerais da condição humana.  As trajetórias que são capazes de seguir no interior do bolsonarismo variam conforme os seus sentimentos de angústia face ao que chamam de “marxismo cultural”, à corrupção e desrespeito aos cânones bíblicos. A ideia de construir um Brasil, sintetizada no lema “Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”, serve para demonstrar a imersão, alienação, imitação e idealismo utópico existentes. A mesma irracionalidade e o fanatismo que caracterizaram as Waffen-SS, distinguem o bolsonarismo e seus seguidores, apropriadamente chamados publicamente de bolsominions, em nítida alusão aos “minions”, que segundo a Wikipedia são personagens de uma animação cinematográfica, evoluídos de organismos aquáticos, unicelulares e amarelos, para seres com um único propósito: subserviência aos vilões mais malvados da história.  

 

Por último vale dizer que as trajetórias dos jovens alemães e brasileiros são difíceis de serem enquadradas em conceitos como o de oportunismo. Antes, eles se regem por suas concepções de mundo e encontram os seus lugares ao conectarem os seus saberes às demandas dos simpatizantes e eleitores do partido. Eles igualmente tendem a reprimir os oportunistas e não se abalam frente aos comandos de destruir. 

 

Eles creem cegamente.

 

 

Zacarias Gama é professor Titular da UERJ/Faculdade de Educação. Coordenador Geral do Programa de Pós-graduação Desenvolvimento e Educação Teotonio do Santos (ProDEd-TS) e membro do Comitê Gestor do LPP-UERJ. Colaborador do PPFH.


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