Crença, poder teológico-político e democracia
Terça-feira, 1 de setembro de 2020

Crença, poder teológico-político e democracia

Imagem: Marcelo Camargo/Agência Brasil – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Mariana Ferreira Bicalho

 

Recentemente, exaltaram na esfera pública as discussões sobre religião, fanatismo e fundamentalismo, especialmente após as manifestações de pessoas religiosas, movimentos sociais, autoridades religiosas e políticas contra a interrupção da gravidez de uma criança de 10 anos vítima de estupro. Movimentos denominados “Pró vida” e grupos cristãos intimidaram o médico e os funcionários do hospital onde foi realizado o procedimento. Ilegalmente, uma militante da extrema-direita divulgou dados pessoais da vítima e de seus familiares. Nas redes sociais, as críticas giraram em torno do fanatismo religioso, da imposição de crenças privadas às instituições estatais e do cinismo de líderes e religiosos – que não só acobertam práticas de violência contra mulheres, como também praticam diariamente. Também houve manifestações de solidariedade e proteção a vítima e seus familiares e de punição aos crimes cometidos pelos manifestantes.

 

Não é a primeira vez, na história recente do Brasil, que demandas religiosas ganham espaço na agenda política institucional e na esfera pública. As eleições presidências de 2018 foram permeadas destas discussões. Nos últimos anos, iniciativas legislativas da bancada religiosa contrárias a abordagem sobre identidade de gênero nas escolas surgiram em diversos Estados brasileiros. Embora o STF já tenha se posicionado contrário as iniciativas legislativas, novos projetos de lei que visam controlar materiais pedagógicos e impor doutrinas religiosas nas escolas não param de surgir. Na semana passada, a Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou, em primeiro turno, iniciativa legislativa que proíbe expressões artísticas e culturais com nudez ou que atentem contra símbolos religiosos. A justificativa do projeto de lei inclui a proteção à criança e ao adolescente e a manutenção da família e dos bons costumes. 

 

Para além da indignação necessária, o momento atual requer uma análise mais aprofundada sobre crença, poder e democracia. Neste texto, pretendo apontar alguns caminhos possíveis para melhor compreensão das disputas teológicas e políticas na atualidade.  

 

Em primeiro lugar, prudente questionarmos aqueles que afirmam que os modos de pensar religiosos devem ser simplesmente descartados por equivalentes científicos. Como afirmou Habermas, “a crença cientificista em uma ciência que possa um dia não apenas complementar, mas substituir a autocompreensão pessoal por uma autodescrição objetivante, não é ciência, é má filosofia”¹. A autocompreensão é imanente ao social, ao consciente, e ao inconsciente, instituído pelas paixões e ações das pessoas em condições determinadas, que podem agir, cometer erros e corrigi-los. A ciência deve contribuir no esclarecimento das ilusões e das crenças infundadas, mas o saber cotidiano é imanente ao ser social. Quando aprendemos algo, alteramos nossa autocompreensão humana e, consequentemente, nossa ação no mundo. 

 

Em segundo lugar, analisar o crescimento, ou não, do fundamentalismo religioso na atualidade requer expandirmos o debate para além de questões morais. Apontar a imoralidade daqueles que queriam impedir a criança de 10 anos de interromper a gravidez não é suficiente para explicar a razão de o fundamentalismo religioso aflorar mais em determinadas condições sociais e períodos históricos do que outros, e se corremos, ou não, o risco de o poder teológico-político prosperar. Também não evidencia a aproximação do fundamentalismo religioso com líderes autoritários no presente. 

 

O mero descarte dos modos de pensar religiosos e a redução da discussão ao campo da moral pode resultar no recalque da religiosidade, sem o devido exame, e na perda da compreensão das condições e contradições sociais da atualidade. Cada conflito entre religião, política e direito que emerge na esfera pública é uma oportunidade de aprendizagem do presente, dos sentidos recalcados e harmonizados nas entranhas da sociedade. É ilusório ou ingênuo acreditar que uma minoria fanática impõe seus valores à maioria de forma forçada ou enganosa. Os sentidos ganham corpo quando tem correspondência na realidade concreta. São as condições sociais e contradições do nosso tempo histórico que podem fornecer perguntas e respostas para o crescimento, ou não, do fundamentalismo religioso e de líderes autoritários na atualidade.

 

Leia também:

Episódio do Podcast Justificando desconstrói mitos sobre o abortoEpisódio do Podcast Justificando desconstrói mitos sobre o aborto

Atualmente, experimentamos o resultado de décadas de política neoliberal: hegemonia do capital financeiro, rotatividade da mão-de-obra, desvalorização do trabalho manual, aumento do desemprego, expropriação de direitos básicos, encolhimento do espaço público e, por conseguinte, aumento das injustiças sociais, econômicas e políticas. Soma-se a essas condições o que Marilena Chauí denominou de perda da “dimensão do futuro como possibilidade inscrita na ação humana enquanto poder para determinar o indeterminado e para ultrapassar situações dadas, compreendendo e transformando o sentido delas”². A maioria da população hoje não tem qualquer pretensão de futuro e, ainda, não compreende as condições e contradições do nosso tempo como possíveis de transformação pela ação humana. 

 

Se não enfrentarmos nem compreendermos as relações de produção – materiais e sociais – que condicionam a vida no presente, não poderemos nos surpreender que grande parcela da população apele para formas transcendentais de respostas – divinas ou autoritárias – no campo individual e político. A modernidade recalcou a religiosidade para esfera privada sem atender as necessidades que ela responde. De um lado, alegaram que a religiosidade seria vencida pela razão, do outro, acreditaram que a racionalidade do mercado responderia as necessidades humanas e aos simbolismos da experiência social. Na prática, nos tornamos trabalhadores e consumidores, efêmeros e descartáveis. Em sua maioria, sem recompensa pela força de trabalho e sem acesso aos bens e serviços. Para piorar, vivenciamos o encolhimento e privatização do espaço público, o crescimento do individualismo e da competição. 

 

Ainda, como adverte Chauí, a ideologia da competência, que impõe decisões políticas a técnicos e especialistas, também afastou a maior parte das pessoas das discussões e decisões públicas, materializando a despolitização do nosso tempo. A despolitização pode colocar em risco a ética inerente a política e a solidificação da teologia política, base do fundamentalismo religioso. Se o mercado atomiza a população, a religião pode se tornar espaço de coesão social e a política pode ceder lugar à violência da teologia política, centrada em um líder carismático, que cria e alimenta o medo do outro como origem do mal e a esperança na salvação divina, minando as possibilidades da política e da democracia.  

 

Necessário destacar que o poder teológico-político, não a crença, que pode ser prejudicial a política e a democracia. A crença individual não é oposta a democracia. Ao contrário, apenas na democracia é possível a convivência pacífica de diversas crenças, conforme interesse e vontade de cada pessoa ou grupo. O uso da crença como forma de domínio por líderes políticos e religiosos que pode divergir da democracia, quando estes têm a pretensão de substituir a política, espaço da ética e da ação humana, por dogmas e submissão ao poder teológico-político, como poder divino e soberano. 

 

A preocupação com o fundamentalismo religioso na atualidade deve ser acompanhada da compreensão das necessidades que a religião responde e dos espaços que ela ocupa. Equivocamos quando enxergamos a religião como algo primitivo ou diminuímos aqueles que creem. Não parece razoável, também, recalcarmos a discussão ao campo da moralidade e do cinismo. Se quisermos levar a preocupação do fim da política a sério, devemos procurar os alicerces e fundamentos na despolitização e nas injustiças do nosso tempo. 

 

 

Mariana Ferreira Bicalho é doutoranda e mestra em Teoria do Direito e da Justiça pelo PPGD PUC Minas, com bolsa Capes. Pesquisadora e professora.


O Justificando não cobra, cobrou, ou pretende cobrar dos seus leitores pelo acesso aos seus conteúdos, mas temos uma equipe e estrutura que precisa de recursos para se manter. Como uma forma de incentivar a produção de conteúdo crítico progressista e agradar o nosso público, nós criamos a Pandora, com cursos mensais por um preço super acessível (R$ 19,90/mês).

Assinando o plano +MaisJustificando, você tem acesso integral aos cursos Pandora e ainda incentiva a nossa redação a continuar fazendo a diferença na cobertura jornalística nacional.

[EU QUERO APOIAR +MaisJustificando]

Notas:

[1] HABERMAS, Jurgen. Fé e saber. 1 ed. São Paulo: Editora Unesp, 2013. p. 13. 

[2] CHAUÍ, Marilena. Fundamentalismo religioso: a questão do poder teológico-político. En publicacion: Filosofia Política Contemporãnea: Controvérsias sobre Civilização, Império e Cidadania. Atilio A. Boron, 1ª ed. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales – CLACSO; São Paulo: Departamento de Ciência Política. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo: abril 2006. p. 127

Terça-feira, 1 de setembro de 2020
Anuncie

Apoiadores
Seja um apoiador

Aproximadamente 1.5 milhões de visualizações mensais e mais de 175 mil curtidas no Facebook.

CONTATO

Justificando Conteúdo Cultural LTDA-EPP

[email protected]

Send this to a friend