O que podem os heterossexuais na luta contra a homofobia?
Sexta-feira, 4 de setembro de 2020

O que podem os heterossexuais na luta contra a homofobia?

Imagem: Elza Fiuza / Agência Brasil

 

 

Por Gustavo Tank Bergström e Tiago Rodrigues Moreira

 

O exercício da advocacia tem a capacidade de ser, simultaneamente, revigorante e debilitante. Revigorante porquanto poucas coisas são tão satisfatórias dentro da atuação jurídica quanto a de se entregar a justiça àquele que agoniza ao ver seu direito se afastar. Mas é cansativo saber que, apesar de todo esforço diário, o direito continua a dispersar-se para todos os outros sujeitos que não aparecem nas estatísticas. Em uma leitura genérica: mudam os atores, permanecem os fatos. 

 

Nesta última semana, recebemos no escritório mais um caso de homofobia no ambiente de trabalho. Dessa vez, as ofensas partiram exatamente da proprietária da empresa, que esbravejou: “Cala a boca! Viado não é pra opinar em nada. Viado fica no seu lugar!” E tão impressionante quanto os insultos perpetrados é o fato de o trabalhador ter continuado a laborar por depender da renda, uma angustia difícil de imaginar.

 

Mas fiquei pensando nas palavras daquela empresária… Se, segundo ela, existe um lugar para os homossexuais, qual seria o lugar dos heterossexuais? Logo após receber o caso, ainda no escritório, liguei para Tiago, amigo pesquisador na área, para saber mais sobre este “lugar”. E foi exatamente neste ponto que nosso texto desenvolveu-se. Obviamente, do contrário disposto pela empresária, o foco é capturar pontos de convergência e oferecer possíveis contribuições para a luta contra a homofobia. 

 

Tiago conta que, tangente a apropriação aguda pelo afamado “lugar de fala”, por sinal muito bem retratado pela filósofa Djamila Ribeiro em seu livro “O que é Lugar de Fala?[1], fica possível engendrarmos algumas situações para a constituição deste ensaio. Espraiam-se em nossa contemporaneidade vários discursos sobre essa máxima, contribuindo por vezes para uma possível segregação entre a sociedade, visto que, no acaso de não possui um lugar de fala, sua voz invariavelmente é ignorada. 

 

Tomamos novamente a fala da empresária “Viado fica no seu lugar”, quais são os lugares dos “viados”? Em síntese, em todos os lugares, onde quer que o “viado” quiser estar. Por outro lado, onde se encontra o lugar da empresária? Ela se sente dona do discurso hegemônico em dizer que, aquele “lugar” é o lugar dela. Essa rinha de lugares, em suma, não nos ajuda na luta contra a homofobia, pelo contrário, polariza e estigmatiza cada vez mais a população LGBTQ+. E ao polarizar esse lugar, cristalizamos tudo o que está em sua volta e acabamos por engessar a segregação das minorias. 

 

Não percamos de vista que nesse emaranhado de situações existe uma barreira invisível que nos omite em circunscrever o lugar como algo heterogêneo. O lugar propõe alguns limites e são justamente esses limites que nos colocam em determinados polos. Atuando assim em uma homogeneização da própria naturalização do vivido, como marcas de perpetuação histórica e geográfica da homofobia. 

 

Nesse sentido, podemos dizer que a homofobia seria a naturalização do discurso de ódio perpetuado historicamente e geograficamente pela segregação e pela idolatria de determinados seguimentos cristãos, haja vista, aos ver dois sujeitos do mesmo sexo se amando, seria incoerente com a naturalidade da existência. 

 

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A sociedade ocidental vem se dividindo em classes binárias por longo período, homem (macho) – mulher (fêmea), público (trabalho – homem) – privado (casa-mulher), dentro (doméstico – mulher) – fora (rua – homem), binários que impedem ou negligenciam a existência de sujeitos que por ventura, não se sentem representados pelas suas classes de conotação social, sendo esses sujeitos, os responsáveis por compor a comunidade LGBTQ+. 

 

A comunidade, por sua natureza, tem por premissa não seguir um padrão binário heteronormativo que se alastra pela sociedade ocidental. Afinal, a luta se manifesta pelo direito de igualdade de gênero, de respeitabilidade para com esses sujeitos que não por uma escolha prévia não pertencem a estes grupos binários. 

 

A luta da comunidade LGBTQ+ por direitos não é de hoje e tampouco será vencida amanhã. Ela está instaurada no seio do que mais incomoda o cidadão, o famoso bem viver em família. O direito de uso dos seus corpos e suas próprias manifestações de desejo já está na esteira da sociedade há muito tempo e, tão antiga quanto essa condição, é a marginalização daquele que não se estigmatiza no padrão heteronormativo.

 

Das coisas básicas que lhe referem à existência como a possibilidade de andar de mãos dadas pelos companheiros, ainda é tido como uma aberração ou uma imagem não adequada para a família do bem, que visa seus valores e atitudes grande parte baseados pelo crivo da cristianidade, que prega o amor ao próximo, desde que o próximo não agrida a imagem de uma família unida e repleta de amor – pai, mãe e filhos. E dentro dessa lógica capitalista heterossexista patriarcal há grupos minoritários que fogem dessa lógica, ou simplesmente, não se sentem contemplados pelo o que isso representa. 

 

O fato de existir implica manter em um segmento prévio e, ao fugir desse segmento, corre-se o risco de enfrentar problemas graves de intolerância e violência, por ser e existir a maneira que lhe é existir. A homofobia maltrata, machuca e mata quem a recebe. E combatê-la é uma responsabilidade que deve ser compartilhada por todos, travada de forma transversal.

 

Logo, faz-se emergente pensarmos dentro dessas situações como ficam os heterossexuais que não compactuam com esses discursos de ódios que são disparados contra os homossexuais, mas que, por outro lado, permanecem inertes.

 

Há, não de hoje, a existência e a permanência das mulheres heterossexuais na luta contra a homofobia, entretanto, poucos homens heterossexuais demonstram esse interesse e o desgosto pela maneira de como sua classe destila o ódio para os homossexuais. Dessa forma, esse ensaio incita justamente a existência e um ponto de apoio entre um homem homossexual e um homem heterossexual na luta contra a homofobia. Uma luta que carece ser vivida e experienciada por todos, até que em um cenário ideal, a não existência mais da mesma. 

 

Acreditamos na possibilidade de trocas entre os lugares de fala e não no imperativo desses lugares, os limites sempre vão existir, porém, basta meditarmos a luz dos limites e ponderar o quão eles são prejudiciais a existência dos outros. 

 

 

Gustavo Tank Bergström é mestrando em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas pela FCA- UNICAMP. Especialista em Direito e Processo do Trabalho. Presidente da Comissão de Direito Digital da 35ª Subseção da OAB/SP. Advogado.

 

Tiago Rodrigues Moreira é mestrando em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas pela FCA-UNICAMP. Especialista em Ensino de Geografia. Professor de Geografia pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri – Diamantina/Minas-Gerais e Bacharel em Humanidades pela mesma instituição.


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Notas:

[1] RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Editora: Letramento. 2017.

Sexta-feira, 4 de setembro de 2020
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