Edifício Itatiaia: A prostituição e suas peculiares formas de controle
Quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Edifício Itatiaia: A prostituição e suas peculiares formas de controle

Imagem: Reprodução

 

 

Por Cassiano Ricardo Martines Bovo

 

 

Pandemia de tantas consequências…quando nos damos conta, estamos fazendo comparações, contrapontos diante de tantas mudanças que vamos presenciando….flashes do antes e do agora.     

 

Caminhando eu em tarde ensolarada pela Rua Barão de Limeira, centro da capital paulista, no trecho entre a Rua dos Gusmões e a General Osório, passei em frente à tosca porta de ferro preta, agora completamente fechada, onde se lê “Edifício Itatiaia”. Outrora, nesse horário, em qualquer dia, meus olhos veriam outra coisa: homens incessantemente entrando e saindo de fervilhante local como formigas na boca de um formigueiro. Na rua, encostadas na calçada, eu veria barracas onde se vendiam bugigangas, comida (como o “churrasquinho de gato”) e bebidas.

 

Quem olha esse velho prédio e de horrível aparência, à distância, com todas as suas janelas sempre fechadas, imagina, certamente, ser mais um dentre os tantos abandonados no centro de Sampa; mas, antes da pandemia, o externo estaria escondendo a efervescência de dentro. E ofuscante contraponto: do outro lado da rua dois imponentes prédios coloniais, plenamente preservados, se projetam. São os hotéis América do Sul e Reinales Plaza. 

 

Ao lado da entrada do Itatiaia tem um pequeno hotel, em seguida um bar, e lá vi algumas mulheres conversando e tomando cerveja em torno de uma mesa na calçada; do lado, outras, encostadas à parede, de pé, expondo seus corpos; cena que de longe lembraria a pulsante putaria do prédio.  

 

Frequentemente se vê a prostituição nas ruas, casas de massagens, boates, bares, hotéis, residências, ou redes na internet e aplicativos, mas a do Itatiaia é peculiar (assim como o da Rua dos Andrada, n. 69, embora muito menos movimentada) na forma como os corpos (prostitutas, clientes e cafetinas) se dispõem, se perfilam, se distribuem e interagem em outra arquitetura e engrenagem: espaço vertical, preenchido e disputado, palmo a palmo (uma Vila Mimosa verticalizada?).  

 

Adentrando pela porta desse personagem (se pudermos assim chamar um prédio) nos deparamos com extenso e desgastado balcão de madeira, atrás dele dois funcionários, um pegando malas, mochilas, pastas e bolsas dos entrantes que os portarem; o outro os colocando em compartimentos, como em geral se faz no sistema de guarda de objetos, lembrando um pombal. O indivíduo receberá um cartão numerado e pagará dois reais. Seguindo, veremos, do lado direito, dois concorridos elevadores, daqueles bem velhos e que não passam muita segurança e, do esquerdo, uma escada.

 

A suja escada, que um dia foi um piso branco, é a opção escolhida pela maioria, como se vê pelo intenso fluxo de homens subindo, descendo, esbarrando-se, mas pouco atentando-se em quem, absortos que estão na atmosfera de sexo do ambiente. Já ali, na escada que faz uma curva que lembra um U tombado para a direita, algumas mulheres estão encostadas à parede, como que recepcionando a entrada ao andar; pelos dizeres, pelas suas mãos nos corpos, se vê a tentativa da rápida decisão antes de pisar no plano.      

 

Chegando ao andar veremos a principal vitrine desse mercado que é o Itatiaia. Mulheres que presumivelmente vão dos 18 aos 50 anos, de uma ponta a outra espremem-se lado a lado; diversidade de biotipos, trajes (ou quase sem), cores, sobretudo em dias de grande movimento, como em épocas de pagamento de salários.  

 

Se falamos na oferta, pelo lado da demanda homens de todos os tipos e idades (muitos migrantes) incessantemente se amontoando, passam em frente às mulheres, algo inescapável ao irem de um lance a outro de escada. Vai e vem, para direita e esquerda, para cima e para baixo, em busca da concretização do desejo; alguns param, vão em direção a alguma mulher para uma negociação ou conversa. 

 

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Em cada ponta dos andares há uma porta, seguindo por ela adentramos em outro ambiente. Embora mude um pouco o layout, em todos os andares, nesses espaços, veremos mesas, cadeiras, sofás, como um bar/boate, tudo muito simples, homens e mulheres conversando, bebendo e casais passando para fazer (ou terminando) programas, sempre sob a vigilância de uma cafetina que vende bebidas, controla o tempo do sexo e fundamentalmente recebe as diárias de cada prostituta. A partir do momento que alguma entra no prédio, pode sair a hora que quiser, mas o “aluguel” tem que ser pago, forçando-as a fazer um mínimo de programas para cobrir esse custo e, a partir dali, começarem de fato a ganhar.   

 

Há sempre um banheiro e um armário com cadeado para a guarda dos pertences, além de um setor onde ficam os minúsculos quartos (se assim pudermos chamar esses cubículos) que se espremem em pequenos corredores, com divisórias geralmente de madeira, algo como uma sequência de caixotes ampliados, por onde o pouco espaço permite colocar. A cama é um retângulo grudado na parede, os lençóis são sujos, pois não são lavados e trocados a cada programa, tanto que há meninas que levam seus próprios para forrar. No Itatiaia o espaço é o bem mais escasso, quanto menor tudo for, mais se faz e se ganha. 

 

Tudo envolto pelo ensurdecedor volume das músicas sertanejas, funk, axé, pagode que tocam sem parar, dificultando conversas; o intenso calor, a baixa ventilação e a pouca luminosidade são agravantes. Tudo levando ao sexo rápido em lógica de alta rotatividade.  

 

E assim se sucede, com mudanças superficiais, nos nove andares, excetuando-se um décimo, onde o elevador não chega, mais espaçoso e arejado.  

 

Como o mercado não é algo abstrato, embora muitos (obcecados e frios defensores de modelos) assim o queiram, as condições da engrenagem de funcionamento do prédio influencia, como não poderia deixar de ser, a dinâmica da oferta e demanda (concorrência) e a consequente  determinação do preço, neste caso automaticamente nivelado a 30 reais por vinte minutos; para clientes que dobram ou triplicam o valor cai em termos relativos, na linha da compra em maior quantidade que faz reduzir o custo unitário. 

 

Embora não haja qualquer imposição de preço (como acontece em casas de massagem, dentre outros locais) a nivelação ocorrida no Itatiaia (que destoa da comum negociação entre as partes) atua como se o objeto do mercado fosse homogêneo, o que está longe de ser verdadeiro, uma vez que há, entre a massa de mulheres, belas garotas que lá frequentam e também trabalham em prestigiadas casas noturnas, onde muitas vezes um programa equivale a uns dez no prédio em questão. 

 

Itatiaia de intensa e apertada concorrência, corpo a corpo disputada, sob suas peculiares formas de controle.    

 

Quem adentra ao Itatiaia, faça o que for, suba ou desça quantos e tantas vezes os andares, uma certeza: ao sair, passando pela porta, não há como não sentir o impacto da mudança do inebriante e carregado ar para a lufada que vem da rua, como elementos que não se misturam. Por outro lado, uma incerteza: o que será da prostituição no pós-pandemia?

 

 

Cassiano Ricardo Martines Bovo é doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e ativista de Direitos Humanos na Anistia Internacional Brasil.


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