Democracia à venda? Eis o porquê estou saindo do Instagram
Quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Democracia à venda? Eis o porquê estou saindo do Instagram

Imagem: Ian Dooley / Unsplash

 

 

Por Guilherme Arruda Aranha

 

Não é só a democracia e a sua militância que estão à venda nas redes sociais. Você está à venda. A minha decisão de abandonar o Instagram e todos os grupos de WhatsApp (e de não entrar em nenhuma outra rede social), é política.

 

As redes sociais descobriram como monetizar o uso aparentemente gratuito das suas plataformas vendendo de tudo aos seus usuários, inclusive ideologias.

 

Isso é feito através dos algoritmos, que detectam não apenas as inclinações ideológicas, mas também a insegurança de seus usuários, e imediatamente lhe dirigem publicidades de produtos e ideias que moldam sua subjetividade sem que se deem conta disso.

 

Não é tanto a venda de produtos que me assusta, mas a venda de ideias: terraplanismo, militarismo, radicalismo político, fanatismo religioso, filosofias fajutas, teorias da conspiração. Já passamos da era do excesso de informação, que marcou as duas primeiras décadas da internet (dos anos 1990 a 2010), à era do excesso da desinformação, que vende mais e mais rápido.

 

As consequências são visíveis e, infelizmente, algumas delas são irreversíveis. Muitas pessoas já tiveram suas vidas destruídas e reputações arruinadas, injustamente e sem direito de defesa. Outras incontáveis foram assassinadas. Isso sem contar o aumento exponencial da ansiedade e do suicídio entre jovens e não tão jovens.

 

Coletivamente, porém, as coisas não andam nada melhores. A democracia está se deteriorando a passos largos, as polarizações se acirram, minorias são perseguidas (e, às vezes, perseguem outras minorias), indígenas são dizimados, as guerras civis pairam no horizonte como uma nuvem carregada prestes a desabar. Enquanto isso o planeta segue superaquecendo em ritmo alarmante. 

 

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E o que isso tem a ver com o Instagram (e com as demais redes sociais)? Tudo. Os algoritmos personalizam anúncios, perfis e conteúdos que mantém o usuário viciado, e que cristalizam as suas “certezas” (por mais estúpidas que elas sejam). O usuário, como se fosse um viciado em drogas, sente-se seguro e feliz. Vivemos, finalmente, em uma mistura insalubre e perigosa de “1984” (George Orwell) com “Admirável Mundo Novo” (Aldous Huxley), com direito à polícia do pensamento e soma para todos. 

 

Prefere filmes? Temos também. Todo mundo que tem uma conta em uma rede social está preso na Matrix. Eu também estou, claro, mas resolvi sair e estou convidando você a sair comigo. 

 

A minha inscrição em qualquer rede social significa mais dinheiro para esses gigantes tecnológicos do Vale do Silício. E a ganância deles pelo lucro, sem nenhum compromisso social e político, está contribuindo para a emergência de governos populistas e autoritários, ao mesmo tempo em que está minando a base da já tão combalida democracia.

 

A propósito, o negacionismo da Covid-19 é só mais uma prova de que as mídias sociais são, por si mesmas, uma outra pandemia, e como tal elas devem ser combatidas. Por isso – e também pelo fato de que o Instagram nunca me acrescentou nada que fosse relevante – resolvi cair fora. Quero continuar testando negativo, tanto para o Covid-19 quanto para as redes sociais. 

 

Se o assunto te interessa, recomendo livros e filmes. Além dos acima citados, “O dilema das redes” (Netflix) e Big Tech (Evgeny Morozov) dão o que pensar. Ainda não li “A nova idade das trevas: a tecnologia e o fim do futuro” (James Bridle) nem “The age of surveillance capitalism: the fight for a human future at the new frontier of power” (Shoshana Zuboff). Estão na minha lista. Quem sabe agora, sem ficar entrando no Instagram todos os dias, terei mais tempo.

 

Afinal, não se esqueça: nas redes sociais não são apenas a democracia e a sua ideologia que estão à venda. VOCÊ ESTÁ À VENDA.

 

 

Guilherme Arruda Aranha é mestre em Filosofia do Direito pela PUC-SP. Professor de Teoria Geral do Direito e de Literatura e Direitos Humanos, ambos pela PUC-SP (atualmente em licença não remunerada e residente em Londres).


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