Holodomor: genocídio ou desabastecimento stalinista?
Terça-feira, 29 de setembro de 2020

Holodomor: genocídio ou desabastecimento stalinista?

Imagem: Genya Savilov/AFP/Getty Images

 

 

Por Eduardo Migowski

 

Imagine se daqui a 2.000 anos algum historiador do futuro, após um colapso nuclear, resolvesse juntar as pouquíssimas fontes restantes na sua época a respeito do regime socialista soviético do século XX. 

 

No início, ele caminhará no escuro. Vamos supor que um dos rastros deixado pelo passado seja essa carta:      

 

Querido Tio! Não temos pão nem outras coisas para comer. Meus pais estão cansados por causa da fome, deitam-se e não conseguem levantar. Minha mãe perdeu a visão com a fome e não consegue enxergar nada. Eu é que costumo pegá-la pelo braço e sair de casa. Leve-me, tio, para Khrakov com você, senão morrerei de fome. Leve-me porque ainda sou muito nova e quero viver; aqui vou morrer, porque todos morrem.[1]

 

Mesmo sem saber muito a respeito do contexto em que a correspondência foi produzida, o pesquisador poderia seguir alguns rastros deixados pelo documento. A primeira constatação é a de que haveria uma fome generalizada. Isso é óbvio. Mas há outros problemas que podem ser levantados. Por que a menina pede para o tio levá-la para um lugar chamado Khrakov? Não haveria fome lá? Por que o tio não atendeu ao pedido da sobrinha? Por que ela mesma e seus pais não foram por conta própria para outra região, em que havia comida? 

 

A fonte, sozinha, não é capaz de responder tais questionamentos. Mas nosso historiador é insistente, ele está determinado a saber mais a respeito do ocorrido e, ao revirar um pouco mais os documentos, ele fica sabendo que a cidade de Khrakov ficava num país chamado Ucrânia, então parte da URRS, que vendeu aproximadamente 1.632 milhões de toneladas de grãos ao exterior em 1932, auge das mortes por inanição. 

 

Tal dado chamou sua atenção. Havia gente morrendo de fome dentro do território desse país e, mesmo assim, os governantes decidiram aumentar as exportações entre 1929/21. As pessoas dessa época deveriam ser muito cruéis, concluiu. 

 

Infelizmente, o impacto nuclear havia sido fulminante e o historiador precisou terminar seu trabalho com apenas duas certezas: houve fome e as causas foram políticas. Mesmo frustrado com a quantidade insuficiente de informações encontradas, tal certeza o colocaria mais próximo do contexto objetivo dos cidadãos ucranianos que muitos dos que estudaram o tema nos séculos XX e XXI. 

 

A ironia é que nós, que vivemos no período pré-desastre nuclear, com um manancial de fontes a disposição, estamos presos a um debate infrutífero se o chamado holodomor teria sido genocídio ou não. O distanciamento das paixões ideológicas, legado pelo tempo, é a vantagem fundamental do nosso bravo historiador do futuro.  

 

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Se quiséssemos realmente aprofundar o conhecimento do passado, poderíamos perguntar aos que defendem a ocorrência de um genocídio o motivo da ainda existirem ucranianos. Ora, se a definição de genocídio é a tentativa planejada de eliminação de determinado grupo étnico e, ao contrário do holocausto, o chamado holodomor não terminou numa invasão estrangeira, o que impediu a consumação da suposta “solução final da questão ucraniana”? 

 

Por outro lado, se o problema teria sido meramente de desabastecimento, por qual motivo a fome ficou concentrada em algumas regiões e, pior, justamente nos locais em que os alimentos eram produzidos? A Ucrânia, por exemplo, conhecida como celeiro da Europa, amargou 80% dos mortos por inanição. 

 

Na mesma linha, podemos questionar o porquê da falta de alimentos ter ficado restrita ao campo e não ter alcançado as cidade. Não deveria ter sido o contrário? Também é difícil argumentar, por mais que eu acredite que algumas pessoas teriam a coragem de tentar, que a decisão de aumentar as exportações tenha sido tomada pelo clima soviético e não tenha um caráter político. O mesmo pode ser dito para o sistema de passaportes, imposto a partir de 27 de dezembro de 1932, para controlar o fluxo de camponeses famintos que, naturalmente, buscaria refúgio nas cidades. 

 

Ora, se as principais narrativas que circulam nas redes não são capazes de responder perguntas tão simples é sinal que a explicação histórica deve ser buscada em outro lugar. Usando farta documentação, o historiador Robert Gellately construiu uma linha do tempo das decisões tomadas pela liderança soviética que, caso analisada, é esclarecedora.[2]

 

No verão de 1932, já podem ser encontradas nos arquivos correspondências avisando  Stálin sobre a condição de penúria do campo: “No verão de 1932, Stálin saiu de Moscou e, por acaso, tivemos acesso à sua frequente correspondência com instruções para Molotov e Kaganovich. Em meados de junho, o líder reconheceu que, a despeito de uma boa safra, a Ucrânia vinha experimentando empobrecimento e fome”[3]. A despeito dessas informações, o volume das requisições foi mantido: “Moscou enviou mensagem, declarando com todas as letras, que não seriam admitidas exceções, fosse na Ucrânia ou em qualquer outra região”.[4]

 

Em 07 de agosto, Stálin aprovou uma severa lei para acabar com o “roubo” de alimentos, que, mesmo que fosse uma única espiga de milho, poderia levar o indivíduo à execução. Apenas em 32, mais de 5.000 camponeses terminariam fuzilados. No ano seguinte, auge de fome, seriam mais de 11.000 execuções.[5]

 

Em 11 de agosto, ao ser informado que a colheita não seria tão boa quanto se imaginava, Stálin culpou seu secretário geral na Ucrânia, Stanislav Kossior, e afirmou que, se nada fosse feito, eles poderiam “perder a Ucrânia”. Na sequência foi enviado brigadas para apreender os grãos restantes. E, em 27 de dezembro, após de cerca de 12 milhões de camponeses migrarem para as cidades, o regime começou a expedir passaportes internos para residentes urbanos acima de 16 anos. Apenas no primeiro ano, 630 mil pessoas foram descobertas vivendo ilegalmente nas cidades.[6]

 

Em 22 de janeiro de 1933, Stálin emitiu ordens especiais para impedir a fluxo de pessoas que deixavam a Ucrânia. “A tentativa de fugir do campo foi alegadamente “organizada por inimigos internos” para desacreditar a coletivização. A política deveria criar barreiras e prender e deportar Kulaks e elementos contra revolucionários. Fora restringidos as vendas de passagens ferroviárias e logo estendidas tais medidas para abranger regiões muito afetadas como o Norte do Cáucaso e o Baixo Volga”.[7]

 

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Por fim, as exportações foram mantidas num volume considerável: “o governo soviético pareceu assassino porque aumentou as exportações de alimentos entre 1929 e 1931. Depois desacelerou o processo. Mesmo assim, no ápice da fome, o país ainda vendia ao exterior não menos de que 1.632 milhões de toneladas de grãos”.[8]

 

Bem, essa é a sequência cronológica das decisões que terminaram com milhões de vidas ceifadas. Diante dessa realidade fica claro que, tanto o discurso que afirma que teria ocorrido um genocídio quanto o que tenta limitar o ocorrido a mera crise de abastecimento, carecem de comprovação documental. 

 

Longe das infinitas e acaloradas discussões das redes sociais, o historiador Richard J Evans encerrou tal debate em apenas dois parágrafos. Primeiro, sobre a narrativa de que teria havido um genocídio:

Foi genocídio? Cerca de 80% das vítimas foram ucranianas. No entanto, a fome tem de ser vista em contraste não com o racismo russo, mas levando-se em conta o contexto da política stalinista de industrialização forçada, em que uma das medidas empregadas consistia em controlar a produção de cereais dos países da União Soviética por meio da “requisição compulsória”, isto é, um artifício burocrático que permitiria ao governo apropriar-se da produção de alimentos obrigando os camponeses a entregarem comida ao Estado, que a repassava para as novas cidades industriais; nos anos seguintes Stálin reorganizou a agricultura implantando uma política de coletivização forçada das propriedades agrícolas.[9]

 

Dizer que não foi genocídio, atualmente, é consenso na historiografia séria. É esse argumento que os neostalinista buscam para limpar a barra do comandante. O problema é que eles dão um salto lógico: se não houve genocídio, a culpa da fome ou é climática ou dos próprios camponeses. Quanto a isso, o mesmo Evans esclarece na sequência: 

Essas mortes foram deliberadamente infringidas por Stálin? Há um bocado de evidências que mostram que, embora as colheitas de 1930 não tenham sido exatamente ruins e em condições normais teriam sido suficientes para alimentar a população, as autoridades soviéticas confiscaram a produção de grãos dos agricultores soviéticas confiscaram a produção dos agricultores, recusaram-se a fornecer comida aos famintos, proibiram as pessoas de abandonar as áreas afetadas e chegaram a deportar algumas pessoas para os locais onde não havia comida.[10]

 

Diante dos fatos, Evans afirma que “a fome, portanto, foi fabricada pelo homem, não acidental ou natural”. No fim, a conclusão dos historiadores do presente não está muito distante daquele verificada pelo nosso hipotético historiador do futuro. Poderíamos seguir o exemplo dos pesquisadores, tanto do presente quanto do futuro,  e colocar os dogmas à prova nos arquivos. Mas não, brigar deve ser mais divertido. 

 

 

Eduardo Migowski é professor formado em história, mestre em filosofia pela PUC do Rio de Janeiro e atualmente faz doutorado em ciências políticas na Universidade Federal Fluminense (UFF).


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Notas:

[1] Applebaum, Anne. Fome Vermelha: A Guerra de Stálin na Ucrânia. Editora Record: 2019).  

[2] GELLATELY, Robert. A Maldição de Stálin. Record: 2017. 

[3] Op. cit

[4] Op. cit

[5] Op. cit

[6] Op. cit

[7] Op. cit

[8] Op. cit

[9] EVANS, Robert. Terceiro Reich na História e na Memória. Editora: Crítica. 2018. 

[10] Op. cit 

Terça-feira, 29 de setembro de 2020
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