A verdade “cristã” de Bolsonaro está acima do próprio Jesus
Segunda-feira, 19 de outubro de 2020

A verdade “cristã” de Bolsonaro está acima do próprio Jesus

Arte: Justificando

 

 

Por Marcio José Silva

 

A eleição do desconhecido, a vitória do ódio e a promoção da ignorância contra a democracia, sob a égide de slogans muito atraentes, tais como “fim da corrupção”, “mito salvador” e “eliminação de inimigos simbólicos” resultou no que vivenciamos hoje. A persistência em se falar “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, frase retirada do evangelho de João (8, 32) é peculiar.

 

Quê seria verdade? Olhemos, primeiramente, para questão verdade, porque após quase três décadas como parlamentar federal o histórico de Bolsonaro é bastante dúbio e a conduta indecorosa. Ademais, cercou-se para o pleito de todos tipo de estratagemas para não comparecer a debates, optando por campanha obscura e, no segundo ano do seu desgoverno, está em curso a maior investigação da História de intervenção e atos contra democracia por utilização de notícias falsas

 

Como conciliar ‘verdade’ com esta avalanche de falsidade e mentiras? Primeiramente, consideremos quem falou a frase usada por Bolsonaro: Jesus. No mesmo evangelho, Jesus chegou a afirmar: “sou o caminho, a verdade e a vida” (14, 6), logo, para ele, o tema verdade era algo importante. Jesus não parecia ser alguém relativista e, sua conduta, segundo o que se conhece, estava em consonância com o que se pode conceber por verdade.

 

Verdade não é “fato”, mas “conceito” que envolve ações e vida, assim, mais do que estar em oposição à mentira e longe de mero relativismo, verdade está relacionado à capacidade de viver de tal modo palavras e ações sejam coerentes ao ponto de serem passíveis de imitação por outros. Assim é possível compreender porque Jesus disse “ser” verdade, mas nunca falou sobre “ter” a verdade, como se alguém pudesse possuir, ser dono ou controlar esta concepção.

 

Pois bem, alguns séculos depois, as pessoas de modo geral, religiosas ou não religiosas, perderam a Aristotélica noção de equilíbrio e vão aos dois extremos: os líderes religiosos “compraram” a verdade ao ponto de estarem até acima do próprio Jesus, esquecendo-se que este, além de pobre era judeu e criaram uma noção bizarra de cristianismo que é branco, europeu, racista e para poucos, cheio de preconceitos, ódio e amante dos que têm dinheiro; outros, temerosos com os primeiros, venderem tudo, incluindo a si mesmos dizendo não haver verdade nenhuma, esquecendo o perigo desta afirmação, pois, a ausência absoluta de verdade implica em legitimação de qualquer ação humana, incluindo as criminosas, tais como o racismo, machismo, homofobia, transfobia e todo crime cometido contra seres humanos, independentemente da razão.

 

Adorno em meados dos anos 1940 denunciava este problema e prevenia sobre a necessidade da existência do que chamou minima moralia, expressão que deu nome a um livro muito interessante no qual o filósofo expressou sua preocupação com os rumos da sociedade humana do século XX com as palavras: “em última instância à frieza burguesa, sempre pronta a subscrever o inevitável”. 

 

Se estivesse no século XXI, o autor, provavelmente escreveria sobre o que predissera: Ad barbari². Que vivemos o grau de barbárie nefasto é incontestável, se este se aprofundará, resta saber, embora veja que, de fato, existe a “frieza burguesa” dominando todos os círculos da sociedade brasileira ao ponto de pessoas afirmarem nestes dias serem “conservadoras” e “à direita” sem qualquer pudor ou rubor que tais expressões deveriam causar em quem conhece um pouco da História do Brasil. Por quê?

 

Ser conservador não tem nada a ver com costumes, moral ou valores, mas sim com o statu quo ante bellum³. Qual guerra (bellum) incomodou tanto que eles queriam retomar as coisas à situação anterior? Para os EUA pós-1865, tolerar o fim a escravização com o amparo da Lei; Na França suportar as derrotas impostas pela Comuna de Paris em 1871; Aos católicos pós-1891 engolir a Rerum Novarum de Leão XIII na qual o Pontífice detalhou qual deveria ser a conduta dos empregadores católicos e que direitos de trabalhadores e operários deveriam ser respeitados!

 

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Suportar pobres, famélicos e miseráveis tendo direitos ou acesso à riqueza gerada pela Revolução Industrial era insuportável! Aí nasce o significado de ser conservador e “direita” no século XX e XXI: combater de todos os modos possíveis, matando, se necessário, àqueles que obtiverem algum acesso ao mínimo existencial para que tudo volte a ser como sempre foi.

 

No caso do Brasil há o agravante: ser conservador e “direita” significa concordar e assassinar novamente, bem como admitir e estuprar novamente todos os milhares de homens e mulheres que foram violados o século XVI para que cerca de 5% tenham as riquezas desta terra. Pior: “gentes da terra” como dizia o rei de Portugal, ou seja, não eram lusitanos, mas nascidos no Brasil, os que praticaram as maiores atrocidades, roubos e barbáries ocorridos neste chão.

 

Sim, o “conservador e direita” brasileiro é assassino, estuprador e usurpador de si mesmo porque não há um brasileiro que não seja fruto do estupro de uma escravizada ou de uma indígena, haja vista que as naus portuguesas não traziam mulheres, exceto profissionais do sexo que se aventuraram nestas terras. Quem não tem ancestral estuprada, tem alguma tataravó prostituta. No século XIX foi a vez de imigrantes europeus em condição análoga à escravidão, famintos e miseráveis, afinal, nobres europeus jamais deixaram o velho continente. Estes últimos criaram a segunda geração bastarda: os que acreditam não ter parte com povo brasileiro.

 

Esta negação que o brasileiro faz de sua própria origem, isto é, somos fruto do estupro, da violência, da matança, da usurpação, da invasão, da fome, da fuga etc., leva os pobres se imaginarem “conservadores e direita” num movimento que significa assassinar seus próprios ancestrais sem qualquer piedade ou respeito. Com o surgimento de Bolsonaro, a ignorância e tolice deste movimento homicida contra nossa memória e cultura ganhou contornos de crueldade, sendo rebatizada como “verdade” e “patriotismo”.

 

Logo, compreende-se porque Bolsonaro tanto falou sobre verdade: para anuviar os sentidos daqueles que não aceitam sobre sua própria realidade miserável e decadente ao ponto de que não compreenderem que “verdade” não pode depender de fator exterior, mas da percepção interna de quem somos, de onde viemos e para onde rumamos.

 

Não se trata de movimento distraído ou de mera ignorância: Jair Bolsonaro age com extremo dolo e movimentos calculados para induzir ao engano e ao erro, afinal, quanto mais usa a palavra verdade com a boca, insere no imaginário dos que lhe ouvem que é arauto desta, dando a entender que as palavras que saem de sua boca são “verdade”. Para aumentar sua iniquidade e desejo de enganar, ele assume para si as palavras de Jesus, em movimento intencionalmente destinado a associar a si mesmo a autoridade desfrutada por aquele. Não é de se estranhar a multidão de pessoas que se dizem cristãs e o cercam caminhem para trás.

 

Veja a Igreja Latina, por exemplo: desde 1965 a Igreja Católica está vivendo um momento de alegria e paz, graças ao Concílio Vaticano II, à teologia da liberação e à crescente atenção dada aos pobres, afinal, a Igreja nasceu num estábulo, quando Jesus, a verdade, chegou ao mundo entre animais, não em um palácio. José e Maria fizeram da morada de animais, do feno e de uns panos, um palácio de amor para acolher seu filho, algo muito diferente da ostentação que os “cristãos” que aderem a Bolsonaro querem.

 

Os acólitos de Bolsonaro que estão na Igreja Católica, porém, sofrem de transtorno delirante em torno da “verdade” de Bolsonaro, a rede de mentiras persistentes que este conta. Falam sobre valores morais e tradição e aliam-se a homem que está no terceiro casamento, algo muito progressista para o “conservador e direita” explicar; esbravejam contra os “perigos do comunismo e da esquerda”, mas não se importam com o Brasil ter se tornado colônia estadunidense descaradamente; gritaram sobre “político de estimação” e adotaram a família toda; cunharam “cristofobia” (como se Cristo pudesse ser alvo da fobia de alguém) e calam-se diante da sua própria violência, principalmente contra pobres, mulheres, homossexuais, afrodescendentes: esta é sua “verdade” cega e obscura.

 

A verdade de Bolsonaro é a cegueira, o engano e a desinformação. Quanto mais se agregar a mentira, tanto maior a confusão ao ponto de se tornar difícil chegar a meio-termo e separar que é verdadeiro ou não. Tamanho é o disparate que, também é negacionista contumaz tratando a atual pandemia e o extermínio generalizado como algo trivial, afirmando que não há corrupção em seu governo e apontando para outras nações como tendo problemas.

 

Esta lógica é simples ao se compreender a “verdade” de Bolsonaro: para “conservador e direita” não está morrendo ninguém porque pobres, mulheres e afrodescendentes, maior percentual de mortos, não são “gente”; a corrupção em seu governo não existe porque não foi formado governo nenhum; desviar a atenção para os supostos problemas de outras nações distrai da realidade que se vive aqui: estamos afundados na barbárie e loucura da “verdade”.

 

Pode-se dizer que, para quem falou em conhecer a “verdade”, Bolsonaro errou o versículo bíblico porque ele tem feito o papel de alguém que também foi mencionado por Jesus, no mesmo capítulo do evangelho de João (8), mas no versículo 44, que diz: “tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai […] Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.”. Que sirva de lição!

 

 

Marcio José Silva é pesquisador nas áreas de Teologia, Direitos Humanos e Ciências Sociais


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Notas:

[1] como alguns gostam: fake news

[2] Aos bárbaros

[3] “o estado em que as coisas estavam antes da guerra”

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