E se fizessem um dossiê de Jair Messias Bolsonaro?
Quarta-feira, 21 de outubro de 2020

E se fizessem um dossiê de Jair Messias Bolsonaro?

BG: Viktor Talashuk / Unsplash – Imagem: Reprodução – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Ricardo Manoel de Oliveira Morais

 

A intensidade e a velocidade com que os absurdos perpetrados pelo atual governo são veiculados faz com que fatos recentes pareçam já um passado distante. Ora, considerando apenas o início da pandemia, tivemos a saída do Ministro Moro acusando o Governo de intervir em investigações da Polícia Federal, uma queimada sem precedentes históricos negada pelo governo, a demissão de dois Ministros da Saúda devido à contenda sobre a cloroquina, a morte de mais de 150 mil brasileiros. E isso só para começar. Tivemos notícias também de que o Governo Federal, através do Ministério da Justiça, estaria fazendo dossiês contra cidadãos que aderiram ao movimento antifascista. 

 

Desconsiderando o simples absurdo que é reprimir o antifascismo (e não o fascismo), gostaria de retomar a questão dos dossiês. Não que o governo não tenha realizado outros feitos marcados pela sua ímpar incapacidade cognitiva de lidar com a realidade. Afinal, chamar Ustra de herói não é exatamente o que se poderia classificar como sensatez. Mas, neste processo reflexivo que procura desconsiderar algumas lacunas de sensatez do bolsonarismo (percebam que fui elegantemente eufêmico), gostaria de pensar sobre quais seriam os resultados potenciais de um dossiê contra o Presidente da República. Ou seja, se alguém aplicasse ao Presidente o mesmo método que ele aplica aos cidadãos, quais fatos comprometedores poderiam ser encontrados? Evidente que se trata de uma pergunta especulativa. No entanto, vale aqui apontar algumas das possíveis consequências de se aplicar o autoritarismo aos autoritários. 

 

Pois bem, deveríamos começar pela sua passagem pelo Exército. E digo passagem, na medida em que o Presidente não foi militar por mais de 15 anos, o que é um período tímido se comparado ao seu tempo como político. Quando era capitão, Bolsonaro se mostrou indisciplinado ao escrever um artigo criticando a remuneração de sua classe. A crítica pública é algo vedado neste segmento. Entretanto, a sua insubordinação não terminou na escrita. Associando-se a um outro colega economicamente insatisfeito, Bolsonaro teria planejado explodir algumas bombas em determinados quartéis, visando mostrar o risco de sua profissão. Novamente, queria um aumento. O mais notável é que a prática do Capitão Bolsonaro foi a mesma empregada pelos militares golpistas de 64: empregar o terrorismo para mostrar que era preciso combater o terrorismo. Talvez a lógica não faça parte do currículo. Mas estou me perdendo. O ponto não é a lógica ou o golpismo. Em um nebuloso processo, Bolsonaro terminou absolvido. Não sabemos se a sua saída do Exército foi negociada com um acordo do tipo “olhe Capitão, se você sair do Exército, prometemos não aplicar uma punição”. Apenas sabemos que ela aconteceu pouco tempo depois. 

 

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Já como Deputado Federal, depois de uma breve passagem na Câmara Municipal do Rio, Bolsonaro teve uma atuação marcada pela proximidade com grupos de extermínio, tendo empregado (pessoalmente ou por algum de seus filhos) familiares de milicianos e os próprios milicianos. Até condecorou e elogiou publicamente vários deles, sobretudo quando promoviam execuções. Neste período engordou o seu currículo enaltecendo torturadores, estupradores, assassinos. Chegou a falar algo sobre o Estado “matar uns 30 mil”. Não sabíamos que, anos depois, ele conseguiria matar mais de 150 mil. 

 

Alguém que estivesse montando o dossiê certamente perguntaria: seria o envolvimento de Bolsonaro apenas indireto ou ele se beneficiou das atrocidades cometidas durante o Regime Militar e perpetradas pelas milícias? Uma pesquisa superficial em torno de seu filho Flávio certamente responderia a esta pergunta, engordando o tal dossiê hipotético. 

 

Não fosse suficiente, a família Bolsonaro possui um gosto peculiar pela movimentação de elevadas quantias em dinheiro vivo e não declarado. Inicialmente, alguém poder-se-ia dizer que se trata apenas de um cidadão movimentando suas finanças privadas. Mas o pesquisador do dossiê não se contentaria com esta versão. Seguramente investigaria a possibilidade de Bolsonaro estar desviando dinheiro oriundo de verbas de gabinete, de “rachadinhas”, de sobras de recursos de campanha e, evidentemente, de milícias. 

 

E o dossiê não pararia por aí. Não parece ser simples coincidência que em seu condomínio residam uma trupe de milicianos. Se o “seu Jair” estava ou não presente na ocasião da morte da Vereadora seria mera contingência. As homenagens que o parlamentar rendeu aos milicianos falam muito alto. O dossiê hipotético conteria informações de sua relação com Queiroz, a explicação documentada dos depósitos na conta de sua esposa, alguns esclarecimentos sobre o lucro estratosférico das lojas de chocolate de seu filho, a aclaração quanto ao gabinete do ódio. Um dossiê digno de Bolsonaro explicaria até mesmo as ligações de sua esposa (e me refiro à atual, àquela popularmente conhecida por um nome que começa com MI e termina com CHEQUE. A observação é importante, já que a defesa da família para o bolsonarismo parece ser apenas um pretexto para o nepotismo) e da família dela com ilícitos penais. 

 

Aparentemente, o dossiê hipotético de Jair Messias seria denso, rico e sórdido. Talvez complicasse não apenas a sua presidência, mas a sua liberdade de ir e vir (aqui, mais uma vez, fui eufêmico). A sua sorte é ninguém tê-lo realizado até então.  

 

 

Ricardo Manoel de Oliveira Morais é doutor em Direito Político pela UFMG. Mestre em Filosofia Política pela UFMG. Bacharel em Direito (FDMC) e em Filosofia (FAJE). Professor.


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