O professor, jornalista e abolicionista negro Antonio José Nunes Garcia
Quarta-feira, 25 de novembro de 2020

O professor, jornalista e abolicionista negro Antonio José Nunes Garcia

Imagem: Os mysterios do Rio de Janeiro (1856) – Montagem: Gabriel Pedroza / Justificando

 

 

Por Vandelir Camilo

 

Podemos afirmar que o esquecimento de homens negros, intelectualizados, proprietários de jornais ou escritores e professores, no Brasil dos oitocentos, não é por acaso. Essas histórias são apagadas e silenciadas de forma “manipulada”, em prol de uma imagem que coloca o sujeito negro exclusivamente como um ser desagenciado. Sabendo disso, este texto traz à tona a vida de Antonio José Nunes Garcia, importante figura que viveu no século XIX e não deveria ter caído em esquecimento. 

 

José do Patrocínio, um dos importantes abolicionistas que atuou em fins do século XIX, foi uma das primeiras vozes a denunciar o esquecimento relativo à trajetória desse personagem, que era uma referência para ele.  Em 1884, no jornal Diário de Notícias, veículo jornalístico de cunho abolicionista, Patrocínio escrevia sobre Antonio José Nunes Garcia, então com 73 anos, afirmando que:

 

Agora, que falamos do senhor [Antonio José] Nunes Garcia que tão injustiçado tem sido pela nova geração, não podemos deixar de censurar o mau procedimento do Instituto Histórico e da Associação de Homens de Letras, esquecendo o seu venerando nome, entre a lista honrosa de seus digníssimos sócios (José do Patrocínio, Diário de Notícias, 1884).

 

FIGURA 1. Antonio José Nunes Garcia (1813-1894)

Fonte: Os mysterios do Rio de Janeiro (1856)

As tensões estabelecidas nas práticas cotidianas de silenciamento e apagamento das memórias de negros e negras brasileiros como sujeitos agenciados impuseram um único lugar para o passado afro-brasileiro, que foi o açoite, a escravidão, o que conceituo como nossa necromemóriaFinalmente, para promover possibilidades outras de releituras do passado negro no mês de novembro, finalizamos nossa série de artigos apresentando a trajetória de um atuante professor primário, jornalista, escritor e abolicionista negro, Antonio José Nunes Garcia, que é um dos meus sujeitos de pesquisa.  Sua história foi apagada e silenciada de nosso contexto histórico, porém, em nome de uma prática educacional antirracista, apresento ao leitor esta apagada história de um intelectual negro do século XIX.

 

Antonio José Nunes Garcia nasceu em 1813, na cidade do Rio de Janeiro, então Corte do Império. Naquele contexto, sua cidade natal conviveu com grandes transformações no campo cultural, político e econômico, com estabelecimento de importantes instituições após a chegada da família real no período Joanino. Antonio José foi o último filho do padre José Mauricio Nunes Garcia (1776-1830) e de Severiana Rosa de Castro (1788-1778), parda livre e desimpedida[1], filha de uma alforriada com um português. Ele foi batizado pelo pai na Igreja de São José, em 27 de março do mesmo ano, tendo por padrinhos sua avó materna, Vitoria Maria da Cruz, e Antonio Bernardino dos Santos.

 

É plausível que Antonio José Nunes Garcia tenha recebido ensinamentos do pai, assim como os irmãos mais velhos. O padre investiu na formação dos filhos como forma de subsistência e cidadania de pessoas de cor naquele contexto escravocrata. O próprio Doutor Nunes Garcia Junior, irmão mais velho de Antonio José Nunes Garcia, em sua autobiografia, declarou que o pai lhes ensinou geografia e latim, além de estudarem “gramática portuguesa e francesa a partir dos trabalhos de Tracy” e por outros professores convidados pelo pai. É o que poderia justificar o refinamento na escrita de Antonio José em diferentes poemas e folhetins de sua propriedade.

 

Em 1837, ele se tornou guarda alfandegário, profissão que exerceu por toda a vida[2]. No ano seguinte, matriculou-se como aluno da Escola Pública de Taquigrafia, chegando a traduzir um método taquigráfico para o português[3]. E, finalmente, em 1838, após concurso, assumiu a cadeira de professor público de Instrução Primária na Freguesia de Guapimirim, em Magé (RJ).[4]

 

As primeiras leis de educação no Brasil surgiram na década de 1820, com constantes alterações; entretanto, todas proibiam o acesso de negros à sala de aula. A Lei de 14 de janeiro de 1837, por exemplo, mantinha a exclusão da possibilidade de escravos e africanos estudarem. Por essa mesma lei, ficamos sabendo que os professores contratados recebiam seiscentos mil reis anualmente para um cargo vitalício. Pela Lei de 1835, os habilitados para o cargo deveriam passar por um longo período de exames e capacitação para que se tornassem professores.

 

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Em fins de 1848, após dez anos atuando como professor de Instrução Primária em Guapimirim, Antonio José Nunes Garcia requereu ser transferido para a Freguesia de Cantagalo, na região serrana do estado do Rio de Janeiro[5]. No ano seguinte, foi informado de que seu pedido de remoção fora negado, então, em 25 de abril 1849, pediu exoneração do cargo.

 

A partir de 1850, foram produtivos, para Antonio José Nunes Garcia, os campos literário e jornalístico. Nesse ano, ele e a esposa se mudaram para o bairro da Glória, e Antonio José foi candidato a vereador[6]. No Diário de Notícias, jornal de propriedade dos abolicionistas, publicou um soneto de aniversário ao imperador Dom Pedro II e inaugurou o primeiro dos muitos folhetins de sua propriedade, O Guasca na Corte.

 

É importante frisar que a causa escravocrata e racial já pautava jornais de sua propriedade desde, ao menos, o início da década. Destacamos suas principais produções jornalísticas e romances desse período: O Guasca na Corte – periódico jocoso, político e imparcial (1851); O Brasileiro – folha livre e independente (1857); A Estrela do Brasil – folha periódica e liberal (1861); O Espelho – folha periódica, política e de teatro do Rio de Janeiro (1870); entre outros.  Além disso, publicou os romances Os mystérios do Rio de Janeiro (1856) e Emília! A misteriosa (1857), além do folhetim Mulheres (1871).

 

Na década de 1880, a despeito de todos os questionamentos e denuncismos que o movimento abolicionista impunha à sociedade e ao sistema monárquico brasileiro, Antonio José Nunes Garcia manteve-se firme em seu apoio à família imperial no período em que liberais e conservadores alternavam-se no poder, até a queda da monarquia. Por outro lado, mantinha uma postura crítica relacionada ao sistema escravocrata e ao debate racial de então, o que, certamente, ocasionou o reconhecimento de abolicionistas republicanos como José do Patrocínio.

 

Após a queda do sistema monárquico brasileiro, que impôs a República, a partir de 1889, os movimentos negros mantiveram suas reivindicações e resistências, ainda que frente à perseguição oficial do Estado. Antonio José Nunes Garcia, assim como outros abolicionistas, participou da primeira eleição para o Senado Federal em chapa intitulada “Homens de Cor” e apoiada pelo “Club dos Jacobinos Pretos”, como consta em notícia do Jornal do Comércio. Ainda que não tenha sido eleita, em 1890, a formação da chapa é um indicativo da representatividade dos abolicionistas republicanos daquele contexto. Para além disso, demonstra o reconhecimento e a capacidade de circulação de Antonio José Nunes Garcia, monarquista, entre abolicionistas monárquicos e abolicionistas republicanos. A chapa era liderada por Lopes Trovão, que foi um ardente abolicionista republicano que atacou duramente o sistema monárquico até sua queda e foi um dos signatários do manifesto republicano de 1870.

 

Finalmente, até recentemente, eram ignoradas informações relativas ao  registro de morte de Antonio José Nunes Garcia e seus momentos finais. Por anos, durante o século XX, diferentes pesquisadores debruçaram-se sobre a busca por data, local e causa mortis desse personagem. Finalmente, em recentes pesquisas, o autor deste texto localizou o registro de morte de Antonio José, oriundo de documentação do Hospital da Gamboa, localizado no morro do mesmo nome, que mandou informar que:

 

Aos vinte e dois de setembro de 1894, neste cartório da Nona Pretoria do Distrito Federal compareceu, João Ignacio Garcia, empregado no hospício de Saude Gamboa e na forma do artigo [(ilegível)], apresentando atestado do doutor Carmo Neto [(ilegível)], que, naquele hospício faleceu de artéria esclerose às sete horas da noite de ontem, o brasileiro, Antonio José Nunes Garcia, pardo, com oitenta e um anos de idade, viúvo, [(ilegível)], ignorando sua filiação, sem testamento, [(ilegível)], não consta que deixasse filhos, [(ilegível)], vai ser sepultado no cemitério São Francisco Xavier.[7]

 

Antonio José Nunes Garcia morreu, ao que parece, desacompanhando de amigos e familiares. Não há menção sobre suas exéquias em nenhum jornal da cidade do Rio de Janeiro. Além disso, não foi feita menção à sua origem paterna e materna em seu registro de óbito, o que, certamente, dificultou a localização de outros dados e contribuiu para o seu esquecimento. 

 

O silenciamento e o apagamento, como no caso de Antonio José Nunes Garcia, homem negro que se reconheceu como não branco em um contexto escravocrata e racialmente hierarquizado, devem ser, urgentemente, substituídos por um pragmatismo que perceba esses sujeitos agenciados e compreenda esse esquecimento não como ausência natural, e, sim, como uma construção mnemônica de silêncios e apagamentos forjados por interesses estruturais e estruturantes da memória social brasileira.

 

 

Vandelir Camilo é músico e historiador, mestre em História Política, CPDOC, Escola de Ciencias Sociais. Doutorando no Programa Interdisciplinar de Memória Social, UNIRIO, onde pesquisa sobre a história de vida do médico doutor José Mauricio Nunes Garcia. Atualmente realiza pesquisas no campo da memória social com ênfase em lugares de memória, memoriais e, nas relações étnico-raciais; masculinidades negras e intelectuais e músicos negros


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Notas:

[1] Segundo a historiadora Hebe Mattos em seu livro Escravidão e cidadania no Brasil monárquico (1999), a descrição “parda livre”, ainda que assuma uma descendência de África, servia para definir pessoas afastadas da escravidão .

[2] Jornal do Comércio, 1837.

[3] Idem. 

[4] Idem. 

[5] Em princípios de 1840, após a morte da primeira esposa, Antonio José casa-se com Francisca Rosa de Jesus, em 1841, na Igreja de Sant’Ana..

[6] Jornal do Comércio, 1850.

[7] CERTIDÃO DE MORTE, Antonio José Nunes Garcia, 22 de setembro de 1894.

Quarta-feira, 25 de novembro de 2020
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