Janine Soares de Matos Ferraz: Diálogos Transcendentes, escolhas pessoais
Quarta-feira, 10 de março de 2021

Janine Soares de Matos Ferraz: Diálogos Transcendentes, escolhas pessoais

Imagem: Analise Benevides no Unsplash

 

Coluna Cláusula Pétrea, dos juízes e juízas da AJD

Por Janine Soares de Matos Ferraz, juíza de direito do TJBA

 

Antes de partilhar a ideia que trago hoje, quero que saibam a partir de qual lugar eu me manifesto.  

 

Embora eu possa ser de mil maneiras, é certo que existem um milhão de outras que não consigo dimensionar e, de logo, peço que leiam as minhas palavras apenas como aquelas de quem deseja compartilhar uma história e buscar conexão consigo, com o outro e com sua comunidade. Alguém que tem o profundo desejo de estar em bons relacionamentos e busca desenvolver práticas que o conduzam ao eu verdadeiro de todas as pessoas, que acredita ser bom, sábio e poderoso.

 

Assim falo do lugar da mulher, branca, de origem simples, Juíza de uma Vara Criminal no interior da Bahia, idealizadora de um programa que integra a Justiça Restaurativa com a segurança pública e que encontrou, nos pensamentos sistêmico, restaurativo e não-violento, um caminho para a condução da sua carreira e para a compreensão e transformação positiva dos conflitos nos quais se insere e pelos quais se tornou responsável em razão da profissão que escolheu.

 

Fui convidada pelo Núcleo de Justiça Restaurativa do 2º Grau do Tribunal de Justiça para atuar como instrutora da Formação de Facilitadores em Processos Circulares – Círculos de Construção de Paz da primeira turma de agentes de segurança pública do Estado da Bahia

 

O convite foi o de vivenciarmos e aprendermos o círculo de construção de paz, trazida ao Brasil por Kay Pranis, onde escolhemos nos unir pelo que nos iguala, a nossa humanidade, de forma horizontalizada, com confidencialidade, oportunidade igual de fala e escuta, uma fala voluntária, feita a partir de si mesmo, dita e recepcionada sem julgamento, que nos permitiu dialogar na forma proposta por David Bonh, suspendendo nossas ideias para gerar consciência coletiva. 

 

Nos círculos de construção de paz, somos convidados a nos libertarmos da dualidade entre o certo e o errado, para buscarmos entender os sentimentos, as necessidades e o que é importante para cada pessoa.

 

No centro deste círculo, onde descansamos os nossos olhos e convergimos nossos símbolos, somos convidados a deitarmos nossos valores e explicitarmos nossos combinados. Dizermos em qual raiz, plataforma, nos apoiamos para lidarmos com determinadas situações, conflituosas ou não; e estabelecermos quais combinados propomos para que nos sintamos em um lugar seguro e confortável para atendermos ao convite de compartilharmos nossas histórias.

 

Nós acreditamos que, quando compartilhamos as nossas histórias, elas nos afetam e este afeto gera ou fortalece conexões de cada um consigo, entre os participantes, dos participantes com a comunidade, com as instituições, com o ambiente e o universo. Estas conexões de afeto transformam de forma positiva as pessoas, os grupos internamente, a relação dos grupos nas comunidades, a relação dos grupos com as instituições, com o meio-ambiente e com o universo, pois ampliam a consciência, o pertencimento, o autoconhecimento e a autorresponsabilidade.  

 

Nos círculos, o bastão da fala gira por todas as pessoas, dando a cada um que o retém em suas mãos o poder de voluntariamente se expressar pelo tempo que tiver necessidade para narrar a sua história, expor seus sentimentos e suas necessidades e, para os demais, a oportunidade da escuta e da serendipidade, da descoberta de si e do outro, a oportunidade de respeito e até do espelhamento.

 

Existe um duplo cuidado com o tempo: com o de cada um e com o de todos. Ao atendermos a este convite estamos livres das construções mentais que nos levam a palestrar, pregar, discursar, convencer, converter, entrincheirar. É um momento ativo-passivo, onde todos falam de si e todos escutam, a si mesmos e aos outros.

 

Estes círculos são momentos marcados por duas cerimônias, uma de abertura e uma de encerramento. Entre estes dois marcos, os participantes se entendem em um momento sagrado, não no sentido religioso, mas como um tempo diverso, especial, de convite para voltar a si mesmo, a sua essência, sua existência no mundo, sua história. E em que encontra outras pessoas com a mesma disposição.

 

Estas cerimônias são um convite à arte. São momentos mobilizadores, que nos motiva a este encontro com este lugar onde guardamos os nossos sentimentos e despertamos a nossa resiliência.  

 

Aberto o círculo, somos convidados a nos apresentarmos e a dizermos como estamos chegando para aquele momento. Somos chamados ao quadrante da roda da medicina, para olharmos o nosso físico, a nossa mente, as nossas emoções e a nossa espiritualidade. Assim, como no aeroporto, no check-in, somos chamados a dizer se estamos, e em qual condições, presentes, para aquela partilha onde nos colocamos em igual posição de alçarmos vôo, da vulnerabilidade de tirarmos os pés do chão para alcançarmos elevada altura.

 

Estabelecidos os valores e combinados, nos círculos perguntas geradoras de partilhas e contação de histórias nos transportam para nós e para o outro. E, naquele curso, a nossa facilitadora Fausta Cajahyba nos convidou a compartilharmos uma situação em que nos sentimos injustiçados.

 

Nesse momento eu pude falar sobre o dia em que, numa relação desigual de poder em razão do gênero, eu me senti exposta e sem controle. Pude falar sobre como uma ação pertencente a uma cultura que não se pautou pela ética do cuidado me atingiu de forma violenta. Dizer que me senti triste, assustada, desconfortável, frustrada, apática e, ao mesmo tempo, motivada, desafiada, responsável, presente e decidida a não me paralisar. Ao narrar a minha própria história, fui tendo a minha consciência ampliada e percebendo que a ação violenta da qual me vi vítima, em verdade, era produto da escolha pela competitividade, disputa de espaço e tentativas de exclusão entre indivíduos de um grupo do qual eu sequer pertenço.

 

Ao me ouvir narrando a minha história ali naquele processo circular, a complexidade das relações humanas foi sendo descortinada diante dos meus olhos e pude ver que os ganhos secundários da  condição de vítima não compensavam as escolhas por brigar, fugir ou congelar-se, pelo estado de choque, ferida, medo e negação; pela impotência e desamparo; pela supressão da dor e medos; pela raiva, fúria, dúvidas espirituais, perda de significado; pela culpa do sobrevivente, humilhação, vergonha; pela consciência da perda, pânico, ansiedade; pelas fantasias de vingança, necessidade de justiça; pelos eventos revividos, hipervigilância, pensamentos intrusivos, lembranças evitadas.

 

Eu senti como algo importante ter a consciência sobre a violência que me impôs a condição de vítima. Contudo, eu escolhi reconhecer esta condição em relação a um fato, delimitado num espaço, numa fração de tempo e sob circunstâncias determinadas. Isso me ajudou a sair de um ciclo que, nas palavras de YODER, tem o potencial de trazer depressão, pensamentos suicidas, silenciamentos, emoções reprimidas, internalização da opressão que me foi imposta, fatalismo e desamparo; autoabuso, vícios, traumas integeracionais e doenças físicas.

 

Para além da consciência sobre este ciclo da condição de vítima, entender a complexidade da violência, ainda me permite a escolha de não optar por agir com contra-violência e, ao me ver como vítima, abraçar o “eu contra eles”; alimentar a minha insatisfação com a insegurança e a injustiça, o medo, a humilhação e a vergonha, e adotar a narrativa do bem contra o mal, a desumanização do outro, ver a violência como uma forma de redenção, satisfazer as minhas necessidades à custa do outro, responder a pressões sociais e culturais com orgulho, criando e mantendo sistemas e estruturas injustas, onde se ataca em nome da autodefesa, justiça e honra. Em suma, diante da violência posso escolher afastar-me do ciclo do agressor e adotar uma postura não violenta.

 

No checkout, oportunidade de pensar sobre o resultado do processo circular e da formação dos agentes de segurança pública, além do ganho pessoal, após compartilhar e ouvir muitas histórias, e apresentar uma visão de justiça sistêmica, restaurativa e não-violenta, meus olhos vislumbraram o surgimento do embrião de um Núcleo de Justiça Restaurativa no Departamento de Direitos Humanos da Polícia Militar da Bahia, com foco precípuo nas situações de assédio e voltado para o público interno; e ainda a oportunidade de dialogar sobre violência de gênero com um oficial da RONDESP da qual surgiu a possibilidade de uma escrita conjunta.

 

Enfim, vi a imaginação moral pulsar  e trazer à existência ações que nunca antes eu havia visto quando fazia a escolha por debater, com a intenção deliberada de não abrir mão de pressupostos, pré-julgar, esteriotipar, pensar de forma dual, classificatória e simplista.

 

Existem formas diferentes de pensar a violência. Não há certo e errado nelas. Há o que é importante para cada pessoa e o que cada um banca, a partir do autoconhecimento e da autorresponsabilidade.

 

Neste 08 de março, eu me sinto feliz por ter ampliado meu repertório e minha consciência de mundo, de forma a romper ciclos de violência que me oprimiam. Desejo ampliar ainda mais e encontrar homens e mulheres neste caminho. Se você anseia algo semelhante, te desejo boas-vindas!

 

Janine Soares de Matos Ferraz é juíza de direito do TJBA e membra da Associação Juízes para Democracia.

Quarta-feira, 10 de março de 2021
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