Mais do que o pão nosso de cada dia: por rosas e pelo direito de sonhar
Quinta-feira, 17 de junho de 2021

Mais do que o pão nosso de cada dia: por rosas e pelo direito de sonhar

Imagem: Filme Pão e Rosas (1999) / Divulgação

 

Coluna Trabalho Além da Barbárie, às quintas no Justificando

Por Juliana Ribeiro Castello Branco e Perla Klautau

 

No filme “Pão e rosas” (1999), Ken Loach conta a história de uma imigrante mexicana, Maya, que se submete às mais duras situações ao cruzar a fronteira e chegar aos EUA para trabalhar. Ela é movida por uma necessidade de sobrevivência, mas também pelo desejo de viver outra vida, sair do seu mundo, para encontrar um lugar onde pudesse ultrapassar as dificuldades causadas pela falta de recursos e, principalmente, transpor a barreira que a interditava de sonhar um futuro distinto do presente. Porque deseja, Maya se lança ao desconhecido. Sem garantias, Maya se arrisca, se expõe. O desejo comparece no filme na fala de diversos personagens e em diversas situações: o desejo secreto e silencioso que move o trabalhador da limpeza a estudar para ingressar na universidade; o desejo barulhento, apaixonado e inexperiente dos representantes do sindicato em tentar mudar o mundo; mas também no desejo ocultado e adormecido dos companheiros de trabalho que, motivados por Maya, conseguem experimentar outra posição, na qual saem da situação de servilismo e enfrentam, coletivamente, a força dos que os mantêm submetidos. Podemos ver que quando isso acontece, há música, eles dançam, sorriem e se potencializam como sujeitos desejantes. Na cena em que se manifestam nas ruas da cidade, exibem uma faixa: “Queremos pão, mas também queremos rosas”, afirmando que existir não é apenas subsistir.

 

Passados vinte anos a sociedade se encontra esfacelada a tal ponto que existir deixou de ser condição, e se transformou em privilégio de poucos. Aos demais, resta uma sub-existência, a existência limitada à luta para não deixar morrer o corpo de fome, doença e cansaço. Vidas sem rosas ou sonhos. É essa a vida dos personagens Ricky e Abbie Turner em “Você não estava aqui” (2019), filme dirigido por Ken Loach, cujo roteiro também se desenvolve em torno das relações de trabalho. O cotidiano do casal coloca em evidência corpos submetidos ao sistema neoliberal, que lhes retira pouco a pouco as perspectivas de futuro. Com os corpos cansados, esgotados de tanto trabalhar, Ricky e Abbie perdem o direito às horas de sono e às possibilidades de sonho. Não há encontro social, não há coletivo, não há alegria nem música. Muito menos rosas e sonhos. Portanto, não há potência: o que existe é vida sem vida.

 

De Maya ao casal citado, muita coisa se perdeu em condições materiais, e cada vez mais nos deparamos com o trabalho como sinônimo de barbárie. Nesse panorama, a privação a que está submetido o sujeito no contexto neoliberal ultrapassa a questão da distribuição de renda e suas repercussões econômicas e sociais. O que está em cena é o impedimento ao direito de desejar, do direito ao sonho. Para dar corpo a essas ideias, façamos um giro a outro cenário contemporâneo: adolescentes e jovens, vendedores de balas e amendoim nos sinais de trânsito da Zona Sul do Rio de Janeiro, vestidos com camisetas iguais onde se pode ler a frase: “Quem dorme sonha, quem trabalha conquista”. Abaixo desta, uma referência bíblica correspondente à citação, e a identificação desses jovens como Tropa do sinal.  

 

Por trás das letras grafadas nas camisas é possível observar o desamparo social, configurado da seguinte forma: Estado ausente, Igreja no comando e onipresença da referência militar. Sem garantias asseguradas, encontramos nas estampas das camisas um dizer que nos fornece sinais dos ideais cultivados por muitos dos jovens que se encontram à mercê das intempéries do mercado e sem ancoragens de proteção social. Diante da incerteza de um futuro ou, até mesmo, sua privação como perspectiva, a condição de desamparo, inerente a todo humano, é maximizada, instaurando a insegurança, a desestabilização e a vulnerabilidade como ingredientes da vida cotidiana de muitos jovens situados precariamente nos laços sociais. A urgência de vislumbrar um porvir, muitas vezes, promove que o trabalho se realize em condições extremas: trabalhar como condenados aparentando felicidade, com a esperança de que a disciplina, a hierarquia e os dogmas impulsionem o ideal empreendedor contido na promessa de garantir a conquista do pão de cada dia

 

A felicidade, transformada em ferramenta ideológica, vem sendo eficaz neste contexto. No discurso hegemônico vigente, a negatividade inerente à própria vida e às relações sociais é descartada e eliminada do campo de percepção dos espectadores interagentes, mantendo as derrotas pessoais e as experiências frustradas reservadas ao espaço individual fechado e inacessível ao coletivo. [1] Está vigente a regra de dar ênfase ao positivo e descartar o que não é bom. Com isso, exteriorizar a injustiça não é possível, já que esta é sentida como fruto de ação própria, de modo que o sujeito suporta a contrariedade e resigna-se diante da sua suposta incapacidade, como se, por não ser suficientemente bom, merecesse o sofrimento. Trava-se então uma luta, na qual o adversário é o próprio sujeito, que, ao final, perde as batalhas. Derrotado, o indivíduo em situação de desamparo pode ser acometido por quadros de neuroses traumáticas com sintomas de depressão e pânico.

 

O trabalho de Ricky é o exemplo do contrassenso dessa guerra em que os adversários habitam o mesmo corpo. O encarregado pela contratação de Ricky lhe assegura que, sendo independente e livre para realizar o trabalho, será o único responsável pela conquista do seu sonho, da realização dos seus desejos: o que fica oculto é que a condição para a realização do trabalho é que o sonho não seja realizado, mas que tampouco deixe de ser perseguido. Para que a produtividade ultrapasse o esgotamento sentido no corpo sem que o trabalhador se insurja, é preciso tê-lo submetido ao ideal neoliberal de geração de lucro ilimitado: manter acelerado o ritmo das atividades, sem que reste tempo para refletir. Invisibilizado o conflito capital versus trabalho, Ricky vive uma constante situação de insuficiência, onde a frustação criada pela hiperexploração do trabalho é sentida como impotência pessoal. 

 

Este paradoxo pode produzir um tipo de sofrimento capaz de revelar como a precarização tem o potencial de instaurar um estado constante de vulnerabilidade que, a serviço do discurso neoliberal, inscreve marcas traumáticas silenciadas pelo processo de reprodução do discurso em questão. A Tropa do sinal estampa esta contradição nos dizeres de suas camisetas: se quem dorme, sonha e quem trabalha conquista, o trabalhador submetido ao modelo neoliberal precisa conquistar. E para conquistar deve trabalhar além dos seus limites físicos, sacrificar o sono e os sonhos.

 

Desse modo, a vulnerabilidade se torna não só a marca patente da condição de trabalhador, mas, sobretudo, funciona como combustível para conquistas que podem ser empreendidas por este sujeito que a tudo se submete e por tudo se responsabiliza. Em seu cerne, esse sujeito fabricado porta o desempenho e o desmentido social. Ambos patenteados pelo modelo neoliberal de obtenção de riqueza: a exigência de conquistas diante da ausência de suportes socialmente disponíveis para que esse processo se dê, somado ao imperativo de viver a positividade que o sistema impõe. Fica evidente que Ricky não dorme, não sonha, trabalha, e não conquista. E os jovens que trabalham em condições precárias, ainda podem sonhar? 

 

As camisetas usadas por adolescentes e jovens para trabalhar nos sinais de um grande centro urbano estampam que as figuras de poder já não mais ocupam as funções de proteção e cuidado. Nossa aposta é a de que o reconhecimento de tal desamparo pode servir também como potência, ou seja, como combustível para o fortalecimento de laços que se tramam horizontalmente. Entrelaçados por situações de vulnerabilidade, jovens trabalhadores podem construir a ancoragem da qual foram privados, tecendo amarras a partir do reconhecimento das potencialidades singulares dentro do coletivo. Isto pode permitir o resgate do sono e propiciar a construção de espaços para sonhar. 

 

Ao negar o isolamento imposto pelo sistema e afirmar a atuação coletiva como meio de busca da dignidade, vislumbramos nestes trabalhadores potência de resistência, embora permaneçam imersos no discurso hegemônico, propagado e repetido nos dizeres das camisetas da Tropa do sinal.

 

 Acreditamos que é urgente atuar, de forma implicada, a partir dessa suposta contradição compreendendo-a em seu contexto e acolhendo-a em sua fragilidade. Cabe aos campos do direito e da psicanálise colocar em ação práticas que criem condições para o desenvolvimento das potencialidades humanas, baseada na interrelação dos sujeitos, marcadas por contrastes, entrecruzamentos e mesclas.[2] Precisamos trabalhar na criação de mediações políticas, institucionais e jurídicas que garantam o reconhecimento da transferência de poder, capaz de produzir novo significado ao trabalho: que não seja prestado exclusivamente para se ganhar o pão, mas para que se afirme como meio de realização de desejo, garantindo-se, aos que o exercem, o direito a voltar a sonhar e querer rosas.

 

 

Juliana Ribeiro Castello Branco é juíza do trabalho – TRT/RJ, mestre em Direitos Humanos pela Universidade Pablo de Olavide, Sevilha-ES e membra da AJD.

Perla Klautau é psicanalista, Membro Efetivo do Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro – CPRJ; Professora do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – IP/UFRJ.

 


Notas:

[1] HAN, Byung-Chul. Psicopolitica: neoliberalismo y nuevas técnicas de poder. Traduccción Alfredo Bergés. Barcelona: Herder Editorial S. L., 2015.

[2] FLORES, Joaquin H. La reinvención de los derechos humanos. Sevilha: Atrapasueños, 2007.

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